19 janeiro 2026

Passeio de saveiro na Baía de Todos os Santos - um dia a bordo do Sombra da Lua

Saveiro Sombra da Lua na Baía de Todos os Santos
É emocionante navegar em um saveiro centenário nas águas da Baía de Todos os Santos



Se você reparou no nome deste blog, será ocioso dizer que sou apaixonada por histórias do mar. Então, imaginem a emoção que experimentei quando fui convidada para um passeio de saveiro na Baía de Todos os Santos

E não foi qualquer passeio nem qualquer saveiro: naveguei até o Museu do Recôncavo Wanderley de Pinho — um dos museus que me ensinou a gostar de museus — a bordo do Saveiro Sombra da Lua, com 103 aninhos de idade e tombado como Patrimônio Histórico do Brasil.

Atracadouro de saveiros na Feira de São Joaquim
O Sombra da Lua atraca nesse cantinho da Feira de São Joaquim. Embora poucos, alguns saveiros ainda resistem levando e trazendo mercadorias do Recôncavo para Salvador

Américo Vespúcio leva a fama, mas quem descobriu a Baía de Todos os Santos (BTS, para os íntimos) foram os saveiros. Foram os homens do mar que, desde os tempos da colônia, aprenderam a esquadrinhar cada cantinho dos 1.233 km² da baía e tiveram o engenho e a arte de criar o saveiro, a embarcação exata para navegar as águas e interligar os 200 km de litoral banhados por nosso mar interior.

Saveiro Sombra da Lua na Baía de Todos os Santos
O Sombra da Lua: uma imagem dessas desmancha até coração de pedra, né?

Se os movimentos tectônicos tiveram a gentileza de esculpir a Baía de Todos os Santos, foram os mestres e seus saveiros que traçaram as rotas, interligaram vilas, ilhas (são 56 na baía!!) arraiais e engenhos, levando e trazendo não só mercadorias, mas as notícias, os jeitos de ser e de viver. Eles inventaram o Recôncavo como pátria de cultura e sotaque únicos. Foram os Ulisses, Eneias e Jasões da minha terra.

Museu do Recôncavo Wanderley de Pinho na Bahia
O destino do passeio foi o belíssimo Museu do Recôncavo Wanderley de Pinho, às margens da Enseada do Caboto, no município de Candeias

É por isso que meu coração estava aos pulos quando cheguei ao pequeno atracadouro escondido na caótica (e fascinante) Feira de São Joaquim. É lá que atraca o majestoso saveiro Sombra da Lua, completamente restaurado e apto a navegar o nosso pequeno mediterrâneo que é a Baía de Todos os Santos.

Veja como foi:

Como foi o passeio no saveiro Sombra da Lua

Atracadouro Feira de São Joaquim em Salvador
Atracadouro Feira de São Joaquim em Salvador
Só de ver o Sombra da Lua atracado já deu um friozinho na barriga

Navegar no Sombra da Lua é uma alegria rara, um privilégio.

O Saveiro, tombando e histórico, não faz passeios turísticos/comerciais, não está à disposição das operadoras e do mercado, mas está disponível para expedições de cunho cultural, científico e de pesquisa. 

Você pode acompanhar o calendário de atividades do saveiro Sombra da Lua pelo instagram. Ele comporta entre 15 e 20 pessoas, sob o comando de Jorge, Mestre Saveirista.

As viagens e expedições à bordo dos saveiros Sombra da Lua, É da Vida e, futuramente, do Mensageiro do Destino são restritas à Baía de Todos os Santos e exclusivas para os amigos da  Associação Viva Saveiro, que reúne grupos e pessoas do Movimento Saveirista, dedicadas à preservação de embarcações tradicionais da Baía de Todos os Santos.

A organização, presidida por Pedro Bocca, além de manter viva a história e os movimentos de preservação, é responsável pela restauração de barcos, como o Sombra da Lua, o Sempre Feliz, o Mensageiro do Destino, bem como a valorização e reconhecimento dos Mestres Saveiristas. 

Igreja do Humaitá em Salvador
Igreja do Humaitá em Salvador
A Igrejinha da Ponta do Humaitá vista do saveiro

Participei da expedição ao Museu do Recôncavo Wanderley de Pinho na sexta-feira, 16 de janeiro, e fiquei maravilhada pela experiência. Primeiro, pelo privilégio de estar a bordo de um saveiro, um dos símbolos mais enternecedores da minha terra. Segundo, porque o museu está lindo, totalmente restaurado depois de 25 anos fechado à visitação.

Saímos do pequeno atracadouro de saveiros e pequenas embarcações da Feira de São Joaquim (o ponto de referência é a Capela dos Órfãos de São Joaquim, que fica bem em frente, do outro lado da Avenida Jequitaia) lá pelas 9:30h. O vento estava generoso e o mar estava de uma gentileza de dar gosto, cenário perfeito para velejar.

Forte do Mont Serrat em Salvador
Forte de Mont Serrat
Salvador vista do mar
Salvador vista do mar

A bordo do saveiro, não espere luxos. Eles não foram inventados para isso. Não há assentos acolchoados nem sombra (exceto a proporcionada pela vela). O que a coberta da embarcação oferece é a vista sem qualquer anteparo para a paisagem belíssima da Baía de Todos os Santos, que fica mais próxima e mais íntima quando contemplada da coberta do barquinho.

Itinerário ao Museu do Recôncavo
O saveiro faz o trajeto São Joaquim-Caboto em pouco mais de duas horas. Por terra, são 50 km

Pra melhorar, ainda tinha o divino abará de Vilma, que gosta de repetir com orgulho que tem “40 anos de acarajé”, ofício permitiu a ela “botar um filho na Faculdade de Medicina da UFBa e outro na Polícia Militar”.

Museu do Recôncavo Wanderley de Pinho
O Museu do Recôncavo Wanderley de Pinho fica na Enseada do Caboto, um dos muitos recortes da Baía de Todos os Santos

Chegamos ao Museu do Recôncavo lá pelo meio-dia. Depois da visita (que vai ficar para o próximo post), teve banho de mar. E nos esbaldamos nos acarajés de Vilma, fritos ali, na hora, e do banquete preparado por Claudete, a amiga que me convidou para o passeio e a quem serei eternamente grata (e o banquete teve moqueca de aratu, ensopado de mexilhões e feijão verde).  

Moqueca de aratu a bordo do Saveiro Sombra da Lua
Moqueca de aratu: o luxo da "Gastronomia Saveirista"

Afinal, “ a Gastronomia Saverista está integrada ao modo secular de navegação” nesse tipo de embarcação, explica Carlos Aquino, no blog Viagens com Aquino. “Como os Saveiros viajam ao sabor dos ventos, com hora certa de sair e sem hora de chegar, o rancho é fundamental”.

No retorno a Salvador, com o vento meio tímido, o Sombra da Lua recorreu ao motor em parte do trajeto. Chegamos à Feira de São Joaquim por volta das 18 horas.

Um pouquinho da história dos Saveiros

Passeio de saveiro na Baía de Todos os Santos

Os saveiros de vela de içar são baianos da gema, como o acarajé e a Lavagem do Bonfim. São um tipo de embarcação que só existe por aqui e que, por séculos, ajudou a forjar a paisagem e a vida da Baía de Todos os Santos.

Desde o período colonial, eram os saveiros que singravam a Baía, conectando Salvador às vilas do Recôncavo, levando e trazendo mercadorias, notícias e pessoas. 

São barcos de paz, mas nunca negaram fogo: na Guerra da Independência (1822-1823), as flotilhas de saveiros baianos enfrentaram a esquadra portuguesa, como na Batalha de Itaparica (vencida em 7 de Janeiro de 1823), sob o comando de João das Botas.

Passeio de saveiro na Baía de Todos os Santos

Eles já foram mais de mil. Hoje restam duas dezenas.

Os saveiros são filhos de uma arte de construção naval inventada na Bahia. A partir de técnicas construtivas de outros povos — portugueses, com certeza, mas também, dizem, holandeses e indianos —os mestres da orla da Baía de Todos os Santos desenvolveram uma embarcação perfeitamente aclimatada aos nossos ventos, nossas marés e nossas correntes.

Casco colorido, velas branquinhas, os saveiros expressam um saber tradicional passado de mestres a aprendizes ao longo dos séculos. Eles são a mais perfeita prova da sofisticação que costuma estar contida na simplicidade. São feitos no olho (sem plantas), com madeiras nativas, engenharia brilhante e instrumentos corriqueiros.

Porão de saveiro
Porão do saveiro Sombra da Lua, por baixo do tijupá

Entre esses instrumentos, o mais peculiar é o graminho, apontado como o árbitro da partida. O graminho, herdado de construtores navais da índia, é a peça usada para riscar a madeira, marcando cortes, encaixes e curvas do casco. O risco não é esboço: é decisão.

O saber fazer saveiros é um patrimônio fundamental, uma expressão da alma da Baía que ameaça se perder desde que o uso comercial das embarcações foi suplantado por outras formas de transporte nas margens do Recôncavo.

Mas alguns mestres resistem, ensinam e continuam a navegar seus barcos. Estaleiros rudimentares ainda teimam. Tomara que daqui a cem anos outra apaixonada pelo mar possa experimentar a emoção que senti atravessando a Baía a bordo do centenário Sombra da Lua

Vida longa aos saveiros da minha terra.


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