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| O Sombra da Lua atraca nesse cantinho da Feira de São Joaquim. Embora poucos, alguns saveiros ainda resistem levando e trazendo mercadorias do Recôncavo para Salvador |
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| O Sombra da Lua: uma imagem dessas desmancha até coração de pedra, né? |
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| O destino do passeio foi o belíssimo Museu do Recôncavo Wanderley de Pinho, às margens da Enseada do Caboto, no município de Candeias |
É por isso que meu coração estava aos pulos quando cheguei ao pequeno atracadouro escondido na caótica (e fascinante) Feira de São Joaquim. É lá que atraca o majestoso saveiro Sombra da Lua, completamente restaurado e apto a navegar o nosso pequeno mediterrâneo que é a Baía de Todos os Santos.
Veja como foi:
Como foi o passeio no saveiro Sombra da Lua
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| Só de ver o Sombra da Lua atracado já deu um friozinho na barriga |
Navegar no Sombra da Lua é uma alegria rara, um privilégio.
O Saveiro, tombando e histórico, não faz passeios
turísticos/comerciais, não está à disposição das operadoras e do mercado, mas está
disponível para expedições de cunho cultural, científico e de pesquisa.
Você pode acompanhar o calendário de atividades do saveiro Sombra da Lua pelo instagram. Ele comporta entre 15 e 20 pessoas, sob o comando de Jorge, Mestre Saveirista.
As viagens e expedições à bordo dos saveiros Sombra da Lua, É da Vida e, futuramente, do Mensageiro
do Destino são restritas à Baía de Todos os Santos e exclusivas para os
amigos da Associação Viva Saveiro, que
reúne grupos e pessoas do Movimento Saveirista,
dedicadas à preservação de embarcações tradicionais da Baía de Todos os Santos.
A organização, presidida por Pedro Bocca, além de manter
viva a história e os movimentos de preservação, é responsável pela restauração
de barcos, como o Sombra da Lua, o Sempre Feliz, o Mensageiro do Destino, bem
como a valorização e reconhecimento dos Mestres Saveiristas.
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| A Igrejinha da Ponta do Humaitá vista do saveiro |
Participei da expedição ao Museu do Recôncavo Wanderley de Pinho na sexta-feira, 16 de janeiro, e fiquei maravilhada pela experiência. Primeiro, pelo privilégio de estar a bordo de um saveiro, um dos símbolos mais enternecedores da minha terra. Segundo, porque o museu está lindo, totalmente restaurado depois de 25 anos fechado à visitação.
Saímos do pequeno atracadouro de saveiros e pequenas
embarcações da Feira de São Joaquim (o ponto de referência é a Capela dos Órfãos de São Joaquim, que fica bem em frente, do outro lado da Avenida Jequitaia) lá pelas 9:30h. O vento estava generoso e o
mar estava de uma gentileza de dar gosto, cenário perfeito para velejar.
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| Forte de Mont Serrat |
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| Salvador vista do mar |
A bordo do saveiro, não espere luxos. Eles não foram inventados para isso. Não há assentos acolchoados nem sombra (exceto a proporcionada pela vela). O que a coberta da embarcação oferece é a vista sem qualquer anteparo para a paisagem belíssima da Baía de Todos os Santos, que fica mais próxima e mais íntima quando contemplada da coberta do barquinho.
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| O saveiro faz o trajeto São Joaquim-Caboto em pouco mais de duas horas. Por terra, são 50 km |
Pra melhorar, ainda tinha o divino abará de Vilma, que gosta de repetir com orgulho que tem “40 anos de acarajé”, ofício permitiu a ela “botar um filho na Faculdade de Medicina da UFBa e outro na Polícia Militar”.
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| O Museu do Recôncavo Wanderley de Pinho fica na Enseada do Caboto, um dos muitos recortes da Baía de Todos os Santos |
Chegamos ao Museu do Recôncavo lá pelo meio-dia. Depois da visita (que vai ficar para o próximo post), teve banho de mar. E nos esbaldamos nos acarajés de Vilma, fritos ali, na hora, e do banquete preparado por Claudete, a amiga que me convidou para o passeio e a quem serei eternamente grata (e o banquete teve moqueca de aratu, ensopado de mexilhões e feijão verde).
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| Moqueca de aratu: o luxo da "Gastronomia Saveirista" |
Afinal, “ a Gastronomia Saverista está integrada ao modo secular de navegação” nesse tipo de embarcação, explica Carlos Aquino, no blog Viagens com Aquino. “Como os Saveiros viajam ao sabor dos ventos, com hora certa de sair e sem hora de chegar, o rancho é fundamental”.
No retorno a Salvador, com o vento meio tímido, o Sombra da
Lua recorreu ao motor em parte do trajeto. Chegamos à Feira de São Joaquim por
volta das 18 horas.
Um pouquinho da história dos Saveiros
Os saveiros de vela de içar são baianos da gema, como o acarajé e a Lavagem do Bonfim. São um tipo de embarcação que só existe por aqui e que, por séculos, ajudou a forjar a paisagem e a vida da Baía de Todos os Santos.
Desde o período colonial, eram os saveiros que singravam a Baía, conectando Salvador às vilas do Recôncavo, levando e trazendo mercadorias, notícias e pessoas.
São barcos de paz, mas nunca negaram fogo: na Guerra da Independência
(1822-1823), as flotilhas de saveiros baianos enfrentaram a esquadra
portuguesa, como na Batalha de Itaparica (vencida em 7 de Janeiro de 1823), sob
o comando de João das Botas.
Eles já foram mais de mil. Hoje restam duas dezenas.
Os saveiros são filhos de uma arte de construção naval inventada
na Bahia. A partir de técnicas construtivas de outros povos — portugueses, com certeza,
mas também, dizem, holandeses e indianos —os mestres da orla da Baía de Todos os
Santos desenvolveram uma embarcação perfeitamente aclimatada aos nossos ventos,
nossas marés e nossas correntes.
Casco colorido, velas branquinhas, os saveiros expressam um
saber tradicional passado de mestres a aprendizes ao longo dos séculos. Eles
são a mais perfeita prova da sofisticação que costuma estar contida na
simplicidade. São feitos no olho (sem plantas), com madeiras nativas, engenharia
brilhante e instrumentos corriqueiros.
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| Porão do saveiro Sombra da Lua, por baixo do tijupá |
Entre esses instrumentos, o mais peculiar é o graminho, apontado como o árbitro da partida. O graminho, herdado de construtores navais da índia, é a peça usada para riscar a madeira, marcando cortes, encaixes e curvas do casco. O risco não é esboço: é decisão.
O saber fazer saveiros é um patrimônio fundamental, uma
expressão da alma da Baía que ameaça se perder desde que o uso comercial das
embarcações foi suplantado por outras formas de transporte nas margens do
Recôncavo.
Mas alguns mestres resistem, ensinam e continuam a navegar seus barcos. Estaleiros rudimentares ainda teimam. Tomara que daqui a cem anos outra apaixonada pelo mar possa experimentar a emoção que senti atravessando a Baía a bordo do centenário Sombra da Lua.
Vida
longa aos saveiros da minha terra.
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