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24 outubro 2025

Roteiros criativos - Lübeck, uma esticada de Berlim ao conto de fadas

Arquitetura típica de Lübeck na Alemanha
Lübeck é uma das cidades medievais mais preservadas da Europa

Ir embora de Berlim é quase um sacrilégio. Mas, já que a partida era inevitável, escolhi uma escapada que elevou minha alma ao 20º andar: Lübeck, a cidade que parece ter servido de modelo para todas as ilustrações dos contos dos Irmãos Grimm.

Nesta série sobre roteiros criativos, Lübeck surge como contraponto e complemento ao fulgor contemporâneo de Berlim. Combinar essas duas cidades é equilibrar a intensidade da capital com a calma de um tempo que parece suspenso. É a prova de que a Alemanha pode ser cosmopolita e, ao mesmo tempo, profundamente poética. 

Mapa de Lübeck na Alemanha
Lübeck foi fundada no Século 12, sobre uma ilha do Rio Trave

Estender a viagem de Berlim a Lübeck não é apenas uma extensão de roteiro — é uma guinada de ritmo muito instigante.

Veja as dicas:

11 junho 2024

Atrações gratuitas em Madri - roteiro pelo Século de Ouro

Plaza Mayor de Madri

A Plaza Mayor é o coração da Madri antiga ou “Madri dos Áustrias”. Este espaço do Século 17 era palco de festas, celebração de conquistas militares e de autos de fé da Inquisição. A construção em amarelo é a Casa de la Panadería, que servia de camarote real


Quer fazer um passeio lindo sem gastar nem um tostão? Entre as muitas e maravilhosas atrações gratuitas em Madri esse "roteiro pelo Século de Ouro" é um jeito maravilhoso de mergulhar na história e nas belezas da capital espanhola.

Entre os séculos 16 e 17, Madri foi uma das cidades mais prósperas do planeta, quase uma "capital do mundo, centro de um "império onde o sol nunca se punha" — a cidade "paradoxal, singular e irrepetível", como definiu o escritor espanhol Arturo Pérez-Reverte. Tanto poder e tanto dinheiro lotaram a cidade de belezas que ainda hoje encantam olhos de locais e viajantes.

Casa de la Villa em Madri
A Casa de la Villa, foi inaugurada em 1692, como sede do governo de Madri (Ayuntamiento). A cidade tinha se tornado a capital da Espanha em 1561

Com este roteiro de atrações gratuitas em Madri pra ser feito a pé, você vai ver as memórias Século de Ouro, com destaque para a Plaza Mayor, a Colegiata de San Isidro (que já foi a catedral madrilenha), a Plaza de la Villa, o Palácio de Santa Cruz e um dos quadros mais bonitos de El Greco na Igreja de San Ginés. 

Veja os detalhes:

19 fevereiro 2017

Madri: um passeio no Bairro de las Letras

Trechos do D. Quixote gravados no Bairro das Letras de Madri

Lembrança do D. Quixote no Bairro das Letras de Madri: exclusiva para pedestres, a Calle de Huertas é pavimentada com trechos de grandes clássicos da literatura e da poesia espanhola


Um dos meus programas preferidos em Madri é passear pelo Barrio de las Letras (Bairro das Letras), onde memórias literárias e livrarias encantadoras convivem democraticamente com a boemia das tabernas tradicionais, casas noturnas animadas e restaurantes descolados.

No tempo em que Madri era capital do mundo, lá no Século 17, o humilde arrabalde que hoje é o Barrio de las Letras era uma área semi-rural. Sua paisagem era composta de huertas (chácaras) que produziam frutas e hortaliças para abastecer as mesas da cidade.

Rua onde morou Miguel de Cervantes no Bairro das Letras de Madri

Friozinho na barriga: Cervantes morou nesta rua


Essa área acabou se convertendo em opção de moradia barata para os artistas da época, do teatro e das letras — entre eles, Miguel de Cervantes e Lope de Vega — que trouxeram consigo seu jeito boêmio de viver.

Ainda hoje, o Barrio de las Letras honra a tradição do Século de Ouro como área boêmia de Madri, sem perder a cara de lugar onde mora gente.

Com tráfego de automóveis controlado e ruas exclusivas para pedestres, como a Calle de Huertas e a Calle Cervantes, o Barrio de las Letras está cercado de cartões postais (Plaza Mayor, Porta do Sol e os museus do Prado e Reina Sofia), e é perfeito para ser explorado a pé e sem pressa.

Casa noturna no boêmio Barrio de las Letras de Madri
A tradição boêmia persiste nos bares e casas noturnas do Barrio de las Letras


Meu roteiro pelo Barrio de las Letras é tanto para ver quanto para evocar.

Poucos elementos de pedra e cal da época de Lope e Cervantes chegaram aos nossos dias, mas o Barrio de las Letras está cheio de lembranças daqueles tempos.

Esse é um passeio para saborear a história, lembrar episódios pitorescos e mergulhar na caminhada usando tanto o mapa quanto a imaginação. Vamos dar um passeio?

11 outubro 2015

Viagens inspiradas em livros - roteiros literários e jornadas sentimentais

Quai d'Orleans, Paris
Nas pegadas de Hemingway, Paris fica ainda mais especial. Na imagem, o Quai d'Orleans, em foto de abril de 2006

Tenho uma relação bastante ambígua com guias de viagem — e algumas prateleiras deles em casa. Gosto dos mapas, endereços e descrições objetivas, que ajudam a organizar a caminhada. Mas minha grande inspiração para sair pelo mundo é a Literatura. Minhas melhores jornadas são as viagens inspiradas em livros.

Um guia de viagem, tomado ao pé da letra, vira uma angustiante lista de tarefas, transformando cada jornada numa interminável gincana — na ansiedade de completar a lista de pontos turísticos, a gente não vê a vida nem sente a atmosfera ao redor.

Paris: margens do Sena e escadaria de La Madeleine
Paris nem precisava ser personagem de tantos livros para ser inspiradora. A cidade, porém, é uma das campeãs de citação no cinema e na literatura. Na imagem, as margens do Sena depois da chuva e as escadarias da Igreja e La Madeleine

Já uma grande história bem contada nos fornece as referências para uma jornada muito pessoal e cheia de possibilidades — eu vivo repetindo aqui que o melhor guia de viagem são essas tais de referências, né? São elas que nos levam pela mão nas explorações mais prazerosas e marcantes.

Mesmo os lugares mais arrebatadores precisam do encantamento que já trazemos conosco para ficarem realmente especiais.

Viagens inspiradas em livros: Ronda, Andaluzia, e Dürnstein, Áustria
Eu fui a Ronda (esq) inspirada em Por quem os sinos dobram, de Hemmingway. À pequenina Dürnstein, na Áustria, quem me levou pela mão foi Ricardo Coração de Leão, cujas aventuras eu conheci lendo Robin Hood

E quem melhor do que a Literatura para prover esse encantamento prévio? Se você já experimentou, sabe do que estou falando. Se ainda não, aposto que vai amar o mundo das viagens inspiradas em livros.

Veja alguns dos roteiros que a Literatura já me inspirou:

Viagens inspiradas em livros: Termas Romanas e Assembly Rooms, em Bath, Inglaterra
Foi arrepiante visitar as Termas Romanas de Bath e os Assembly Rooms, cenários de momentos decisivos de Persuasão, meu livro favorito de Jane Austen

01 junho 2014

A Casa de García Lorca em Granada - um nó na garganta

Casa Museu García Lorca em Granada na Espanha
A casa de García Lorca em Granada, na Huerta de San Vicente


Fiquei profundamente comovida com a visita à Casa de García Lorca em Granada, antigo retiro de verão da família do poeta, na Huerta (algo como “chácara”) de San Vicente.

A poesia de Federico García Lorca embalou minha adolescência e foi impossível andar por Granada, cidade natal do poeta, sem lembrar de seus versos, sempre tão marcados pela paixão andaluza.

Homenagem a García Lorca na muralha da Alhambra em Granada

Uma lembrança de Lorca na muralha da Alhambra


Granada resplandece de tesouros mouriscos, mudéjares, renascentistas e barrocos. Mas nem tudo é luz na “cidade de sonho e lua cheia”.

Todos os lugares do mundo têm histórias tristes, Granada há de ter milhares delas, mas a mais famosa envolve justamente o autor desse verso, assassinado por um comando de extrema-direita um mês após o golpe franquista contra a República e o início da Guerra Civil Espanhola, em 1936.

Parque Federico Garcia Lorca em Granada

A antiga área de cultivo da chácara de Lorca é hoje um agradável parque público, bem próximo ao Centro Histórico de Granada


Pouco mudou na casa de García Lorca — o  coração da propriedade rural, hoje convertida em parque público — desde que a família a abandonou e seguiu para o exílio, após o assassinato do poeta.

Estão lá os móveis, utensílios, quadros (muitos pintados por Lorca) e documentos, compondo uma cena pacata, aconchegante e desprovida de tragédia ou espetáculo.

A casa de García Lorca evoca uma família em torno da mesa, conversas no alpendre e sossego. Nada parecido com a fúria que se sucedeu ao levante fascista e a voragem da Guerra Civil Espanhola.

Estátua de Garcia Lorca na Plaza de Santa Ana em Madri

Estátua de Lorca em frente ao Teatro Español, em Madri


A visita ao Museu Casa de García Lorca é um programa melancólico, mas imperdível.

Mesmo que você não seja uma apaixonada pelo poeta, vale a pena. É um jeito quase lírico de descobrir um pouco mais sobre a história da Espanha e as relações sociais na Andaluzia do início do século passado.

15 outubro 2013

Jane Austen em Bath: cenários de romance


Termas Romanas de Bath
As Termas Romanas, atração mais conhecida de Bath. Ao fundo, a torre da abadia medieval da cidade

Quer se sentir dentro de um romance como Orgulho e Preconceito e Persuasão? Então você precisa conhecer Bath, no Sul da Inglaterra, a cerca de 1h30 de Londres.

E não pode perder a visita a dois lugares que evocam mais fortemente a presença de Jane Austen em Bath: as Termas Romanas e os Assembly Rooms.

Pump Room das Termas Romanas de Bath, Inglaterra
O Pump Room das Termas Romanas era onde a alta sociedade de Bath se encontrava para tomar as águas, tidas como medicinais. Aqui também eram feitos negócios, casamentos e fofocas. O local é cenário de várias páginas de Jane Austen

Bath inteirinha evoca páginas de romance. A arquitetura muito bem preservada da cidade rende lindos passeios. Mas as Termas Romanas e os Assembly Rooms são essenciais para quem quer seguir a trilha de Jane Austen, já que foram palco de momentos cruciais de Persuasão (meu livro favorito dela) e de boa parte da ação de A Abadia de Northanger.

As Termas Romanas e os Assembly Rooms são tão bonitos e cheios de história que nem precisavam ser cenário de romance pra entrar na sua lista de motivos para ir a Bath. Veja as dicas:

15 setembro 2013

O que fazer em Bath, Inglaterra


Bath, Inglaterra: a Great Pulteney Street vista de uma janela do Holburne Museum
Harmônica, simétrica e um escândalo de bonita. Você vai cair de amores por Bath. Na imagem, a Great Pulteney Street vista de uma janela do Holburne Museum

No Século 18, era o máximo passar o verão em Bath. Harmônica, simétrica e marcada pelas curvas de seu Rio Avon, de suas colinas e de sua arquitetura. Bath era sinônimo de elegância e de vida social intensa, um lugar para ver e ser visto. E, quem sabe, caçar um bom partido ou cair nas graças do poderoso da ocasião.

O tempo passa e já devem ser raros os que vão até Bath, no Sul da Inglaterra, em busca de casamento ou pistolão. Mas os encantos da cidade continuam todos lá, prontinhos para arrebatar o visitante do Século 21.

The Royal Crescent em Bath na Inglaterra
The Royal Crescent em Bath na Inglaterra
The Royal Crescent é considerado um dos exemplos mais importantes da arquitetura georgiana na Inglaterra. O semicírculo de fachadas rigorosamente idênticas continua sendo o endereço mais chique de Bath — e, sim, você já viu esse cenário em vários filmes de época


Eu passei dois dias em Bath (era pra ser só um, mas não consegui ir embora, de tão apaixonada) e pude explorar muitos detalhes lindos dessa cidade encantadora, bem fácil de visitar a partir de Londres

Veja alguns belos motivos para colocar Bath no seu roteiro pela Inglaterra:

08 setembro 2013

Portsmouth, Inglaterra - a celebração do mar

Navio HMS Warrior nos Estaleiros Históricos de Portsmouth na Inglaterra
A bordo do HMS Warrior, uma das atrações do Estaleiro Histórico de Portsmouth

Já que eu tenho um blog chamado “A Fragata Surprise”, seria tremendamente redundante dizer que um ponto inegociável no meu roteiro na Inglaterra era a visita a Portsmouth, uma espécie de vaticano para todos os aficionados por aventuras navais deste planeta.

Ainda que você não seja do tipo que coloca barquinhos de papel para navegar na sua caneca de café, garanto que também vai gostar muito de dar um pulo em Portsmouth, a cerca de 100 quilômetros a Sudoeste de Londres.

Estaleiros Históricos de Portsmouth, Inglaterra, navio HMS Warrior
O Warrior se encarrega de dar as boas vindas a quem chega à cidade pela estação de Portsmouth Harbour

A principal atração de Portsmouth são os Estaleiros Históricos, onde estão ancorados navios com uma baita biografia.

Um desses navios históricos é o HMS Victory, a nau capitânia inglesa na Batalha de Trafalgar. Você também vai ver o HMS Warrior, o navio de guerra mais poderoso da época vitoriana.

Bateria de canhões do navio HMS Warrior, nos Estaleiros Históricos de Portsmouth, Inglaterra
Detalhes da vida a bordo do Warrior: a bateria de canhões e a bancada para as refeições (à direita). Abaixo, a bateria de canhões do HMS Victory, navio de linha do Século 18

Bateria de canhões do navio HMS Victory

E garanto que vai ficar boquiaberta com os restos do navio  Mary Rose, capitânia da frota de Henrique VIII, que naufragou em 1545, passou 437 no fundo do mar e foi resgatado em 1982, numa empreitada arqueológica que merece figurar no top 10 das grandes aventuras navais.

Neste post, você vai descobrir o que ver em Portsmouth, como chegar lá e outras dicas para organizar a visita:

01 setembro 2013

The Globe, o Teatro de Shakespeare em Londres

Teatro Globe em Londres
O tour organizado pelo Teatro Globe de Shakespeare responde à pergunta do bardo: sim, o palco pode tudo

Que me perdoem os grandes monumentos da capital britânica (todos majestosos, impressionantes e imperdíveis), mas entre todos os roteiros históricos que fiz na cidade o que achei mais empolgante tinha quase nada de pedra e cal, pouquíssimos traços palpáveis. E, mesmo assim, foi o que me fez viajar mais longe. Um presente do Teatro de Shakespeare em Londres.

O roteiro guiado organizado pelo Teatro Globe de Londres (The Globe Shakespeare's Theater) percorre alguns quarteirões do bairro de Southwark, que foi o reduto das atividades de entretenimento na época elisabetana.

É um passeio que responde com um imenso sim!  à pergunta de Shakespeare, o homenageado dessa caminhada: "Pode esse palco conter os vastos campos da França?" (no prólogo de Henrique V).

Teatro Globe visto do Rio Tâmisa
Teatro Globe visto da Millenium Bridge em Londres
Antes da visita, amorei o Teatro Globe por diversos ângulos, antes da visita. Acima, a vista da Millenium Bridge. No alto, um clique feito a bordo de um barco no Rio Tâmisa

E a resposta é que a arte do palco pode tudo. Esse roteiro organizado pelo Teatro de Shakespeare em Londres nos leva nas pegadas do bardo e seus contemporâneos e prova que o palco (ou melhor, a arte teatral) pode conter os campos da França e o mundo inteiro que o engenho das palavras encenadas possam nos fazer imaginar.

Basta uma história bem contada e a nosso pensamento vai longe. Caminhando entre as modernas construções de Southwark, cercada pelo barulho da metrópole, eu vi e senti o tempo do bardo e seus companheiros na narrativa do guia.

Se você está procurado um passeio bacana em Londres, o Teatro Globe e a trilha de Shakespeare vão fazer você viajar maravilhosamente pela história. 

Veja as dicas desse passeio bacanérrimo em Londres:

17 agosto 2013

Uma tarde na casa de Jane Austen

Casa de Jane Austen em Chawton na Inglaterra
Museu Casa de Jane Austen, em Chawton, onde a minha escritora preferida viveu seus últimos anos

Atualizado em janeiro de 2016

O Sul da Inglaterra, para mim, sempre foi a cara de Jane Austen, essa mulher genial na arte de retratar seu tempo e que, sem sequer uma palavra áspera, foi capaz de criticar de forma tão definitiva as convenções sociais da aristocracia inglesa do final do Século 18.

Muito por causa dela, resolvi esticar minha viagem pela Inglaterra até Hampshire e, fazendo de Winchester minha base, fui conhecer a vila de Chawton onde ela viveu seus últimos oito anos e onde escreveu a versão definitiva de seus romances. O Museu Casa de Jane Austen é uma visita emocionante.

Vila de Chawton na Inglaterra
Para chegar à vila de Chawton é preciso descer do ônibus na estrada e caminhar até lá
Casa de Jane Austen
Vocês imaginam como eu fiquei emocionada ao dar de cara com essa plaquinha?

A viagem de Winchester a Chawton, cerca de uma hora de estrada, já é um prólogo perfeito para preparar o clima, com a paisagem muito verde passando na janela.

O ônibus não entra na vila de Chawton. É preciso descer na estrada e caminhar cerca de um quilômetro até a povoação, um percurso bem agradável, graças às muitas árvores do caminho.

Logo após uma curva — que parece ter sido posta lá de propósito, para aumentar o impacto da chegada — fica a casinha simples, na verdade uma cottage (chalé), hoje transformada no Jane Austen's House Museum.

Veja todas as dicas sobre a visita: 

22 janeiro 2013

Passeios em Lisboa - minhas melhores memórias da capital portuguesa

Torre de Belém em Lisboa

"Ah, quanto mais ao povo a alma falta,
Mais a minha alma atlântica se exalta
E entorna".
(Mar Português, Fernando Pessoa. Na foto, a Torre de Belém)


Atualizado em agosto de 2024

Por um triz eu não escorrego na tentação de chamar este post de "Lisboa em pessoa", mas decidi evitar qualquer risco de trocadilho  — se não me falha a memória, esse título já está na capa de um guia de passeios em Lisboa que folheei no aeroporto e que pretende ser exatamente uma coletânea de roteiros por cenários frequentados pelo autor de Mar Português. 

Fernando Pessoa realmente esteve comigo nos meus passeios em Lisboa. Mas foram tantos os velhos amigos que me acompanharam por lá que não seria justo creditar meu encantamento apenas à memória do poeta.

Largo do Rossio em Lisboa
Sete-Sóis conheceu Blimunda num auto de fé no Largo do Rossio, conta-nos Saramago em um dos meus romances preferidos, O Memorial do Convento

O espírito, porém, é bem esse. “Em pessoa”, no caso, refere-se à descoberta de uma Lisboa que antes se escondia de mim na semelhança desconcertante com meus dois cenários mais queridos, Salvador e o Rio de Janeiro.

Na minha primeira visita, de tanto reconhecer nela as minhas cidades, deixei de conhecer Lisboa de verdade.

Mosteiro dos Jerónimos em Lisboa
O Mosteiro dos Jerónimos é uma das minhas melhores memórias de Lisboa

Felizmente, existem as segundas chances, pelo menos para os lugares, e, enfim, vi a capital portuguesa frente a frente, sem intermediações ou interferências. E amei. Neste post eu apresento três passeios que conectam a gente com a alma de Lisboa. Veja as dicas:

03 novembro 2012

Ruínas de Troia na Turquia - o poder da palavra

Ruínas de Troia na Turquia
O grande atrativo de Troia emana do poder de uma história bem contada

O caminho é árduo, a paisagem é árida, o cenário é pobre. Mesmo assim, a visita às ruínas de Troia, na Turquia, está entre uma das melhores coisas que fiz na vida.

De Istambul a Troia são cinco horas de ônibus, mais outro tanto na volta — sem contar as travessias de ferryboat.

Em torno das ruínas de Troia, você verá apenas arbustos retorcidos e o solo pedregoso, calcinados pelo sol, e o azul do mar no Estreito de Dardanelos.

Anfiteatro nas ruínas de Troia na Turquia
Anfiteatro escavado em Troia
Vestígios romanos nas ruínas de Troia na Turquia
Troia tem pelo menos nove camadas de cidades sobrepostas, atestando a antiguidade da sucessiva ocupação do local por diferentes povos. Os vestígios na imagem são romanos e datam da nona povoação da área

Os vestígios arqueológicos vão muito pouco além dos restos de muros, alicerces e destroços em processo de catalogação.

Por que ir a Troia, então?

Porque nas ruínas da cidade da Ilíada, o que importa são as palavras. É a força de um relato, composto há quase três mil anos, que torna o sítio arqueológico de Troia absolutamente arrebatador.

Camadas arqueológicas nas ruínas de Troia na Turquia
Camadas arqueológicas nas ruínas de Troia na Turquia
As etiquetas com algarismos romanos demarcam as diversas camadas de Troia. Guerras, tsunamis e malária devastaram as sucessivas povoações assentadas no local, uma posição estratégica dominando a entrada do Estreito de Dardanelos. No quebra cabeças arqueológico, a majestosa Troia homérica teria sido a sétima cidade erguida no local
Camadas arqueológicas nas ruínas de Troia na Turquia
A placa explica a sobreposição das povoações em Troia (Tabakalar = camadas, Perioden = períodos, Strata = estratos)

Talvez no mundo regular uma imagem valha mais que mil palavras. Estamos com pressa e a imagem — essa fração de segundo que promete descrever tudo — nos conforta.

Felizmente, há uma outra vida onde as palavras formam realidades infinitas, desenham universos e tornam lúdica e lírica até mesmo a objetividade da imagem (sei que vou apanhar, mas sustento que, até no cinema, o princípio era o verbo).

Anfiteatro romano nas ruínas de Troia na Turquia
Mais um anfiteatro romano. Este e o que você viu lá no alto datam da oitava ou nona povoação de Troia, que compreendem os períodos clássico, helenístico e romano

Troia não é atração turística. O quebra cabeça arqueológico de suas nove camadas de povoações superpostas não tem esplendores arquitetônicos para oferecer à contemplação.

O sítio arqueológico de Troia também não oferece muitas oportunidades para selfies: o entusiasmo com os cliques cessa logo que os grupos de excursionistas atravessam os portões do sítio histórico, deixando para trás um cavalo de madeira meio cafona, mas muito disputado como pano de fundo para fotos.

Réplica do Cavalo de Troia
Muralhas em troia na Turquia
Vestígios arqueológicos em Troia na Turquia
A "réplica" do cavalo concebido por Odisseu faz mais sucesso que os verdadeiros vestígios de Troia

Não há muito o que ver em Troia. Apenas pedras e fragmentos da História de nove ocupações humanas. Assentamentos que teimaram em florescer nessa faixa de terra estratégica, à beira do Estreito de Dardanelos, para, um dia, serem varridas por maremotos, guerras ou epidemias.

A Troia de Heitor (cantada por Homero) teria sido a sétima — e a mais poderosa — cidade erguida aqui.

Estreito de Dardanelos visto das muralhas de Troia na Turquia
Estreito de Dardanelos visto das muralhas de Troia na Turquia
Restos de muros troianos contemplam o Estreito de Dardanelos. Na narrativa de Homero, foi neste pedaço de terra que Aquiles e Heitor se enfrentaram

A última Troia, romana, pereceu de pragmatismo, ofuscada pelo o esplendor de Constantinopla, pelo deslocamento das rotas comerciais e consequente esvaziamento da importância militar da região.

Tudo isso vai sendo lembrado pela descrição monocórdia do guia turístico. Mas essas palavras objetivas, acessórias à imagem imediata, logo emudecem. Aqui, quem canta é a Musa.

Sítio Arqueológico de Troia na Turquia
A Arqueologia ainda não encontrou um modo seguro de escavar Troia sem danificar as diversas camadas de cidades assentadas aqui. A maioria dos vestígios visíveis é da cidade romana. Mas os trabalhos prosseguem
Sítio Arqueológico de Troia na Turquia
Sítio Arqueológico de Troia na Turquia
Sítio Arqueológico de Troia na Turquia
Muitos vestígios de construções em Troia ficam protegidos das intempéries por toldos

Andando em silêncio pelas trilhas do parque, são as palavras mágicas de Homero que reconstroem as imagens do mito e da história.

Lá adiante está o mar, de onde chegaram os atreus "no côncavo de suas negras naus". Lá estão as areias que receberam corpo mutilado de Heitor. São as palavras que reerguem as muralhas e reeditam o assédio, que repovoam esse campo onde “muitas almas de heróis desceram à casa de Hades”.

Em Troia, minha alma estava voando.

Veja as dicas dessa viagem mágica às ruínas de Troia:

Ruínas de Troia na Turquia
Não foi muito fácil chegar a Troia, mas ir até lá foi uma das melhores decisões que já tomei em uma viagem