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24 outubro 2025

Roteiros criativos - Lübeck, uma esticada de Berlim ao conto de fadas

Arquitetura típica de Lübeck na Alemanha
Lübeck é uma das cidades medievais mais preservadas da Europa

Ir embora de Berlim é quase um sacrilégio. Mas, já que a partida era inevitável, escolhi uma escapada que elevou minha alma ao 20º andar: Lübeck, a cidade que parece ter servido de modelo para todas as ilustrações dos contos dos Irmãos Grimm.

Nesta série sobre roteiros criativos, Lübeck surge como contraponto e complemento ao fulgor contemporâneo de Berlim. Combinar essas duas cidades é equilibrar a intensidade da capital com a calma de um tempo que parece suspenso. É a prova de que a Alemanha pode ser cosmopolita e, ao mesmo tempo, profundamente poética. 

Mapa de Lübeck na Alemanha
Lübeck foi fundada no Século 12, sobre uma ilha do Rio Trave

Estender a viagem de Berlim a Lübeck não é apenas uma extensão de roteiro — é uma guinada de ritmo muito instigante.

Veja as dicas:

12 outubro 2025

Roteiros criativos - um passinho além do óbvio

Arco de Santa Catalina em Antigua Guatemala
Se você curte cidades coloniais, vai se apaixonar por Antigua Guatemala

Há destinos que todo mundo sonha conhecer — Paris, Roma, Londres, Nova York. Mas, como diz minha canção favorita, tem muito mundo pra se ver. E é justamente esse “muito mundo” que inspira a nova série do blog: Roteiros Criativos — viagens por caminhos menos óbvios, cheios de histórias, sabores e descobertas.

São cidades e vilarejos onde a vida segue seu ritmo autêntico, ainda não moldado pelo turismo de massa —  e, de quebra, com preços muito mais amigáveis. Perfeitos para inspirar roteiros criativos, capazes de transformar qualquer viagem em uma experiência única.

Jardins do Turia em Valência na Espanha
Os Jardins do Turia, parque delicioso em Valência, na Espanha
 
Este post abre uma série dedicada a esses roteiros criativos. Não se trata de nada secreto, misterioso ou repleto de perrengues — meu lado Lara Croft anda bem comportado. A ideia é simplesmente sugerir destinos que merecem muito mais atenção de viajantes curiosos e dispostos a ir um passo além do óbvio.

Não é preciso abandonar Paris (quem seria capaz?), mas por que não incluir Rouen no roteiro?
Veneza e Florença são, sem dúvida, imperdíveis — mas Bolonha, ali no meio do caminho, é uma joia que muitos deixam passar.

Pórtico em Bolonha na Itália
Os famosos pórticos de Bolonha acompanham o visitante nas andanças pela cidade. São mais de 40 km dessas colunatas, protegendo o caminhante do sol e da chuva

Gosta de cidades coloniais? Experimente descobrir Antigua, na Guatemala, ou Villa de Leyva, na Colômbia.

E se Madri e Barcelona são paradas obrigatórias, que tal transformar essa dupla em um triângulo, acrescentando Valência?

Entendeu o espírito da coisa? Esses roteiros criativos não vão obrigar você a atravessar pontes de cordas nem a explorar subterrâneos cheios de bichos estranhos. São lugares fáceis de chegar, conhecidos e até turísticos, mas que recebem muito menos atenção do que merecem.

Vila de Lindos na Ilha de Rodes na Grécia
Lindos, na Ilha de Rodes: mar impecável, ruínas da Antiguidade e casinhas brancas sem muvuca

Nos próximos posts, trarei sugestões e inspirações para quem quer viajar com um olhar mais curioso e criativo — sem abrir mão do conforto, da beleza e, claro, da emoção de descobrir o novo.
Veja as dicas e prepare-se para se encantar pelos caminhos menos óbvios.

Veja o que vem por aí nesta série, com posts bem detalhadinhos:

28 março 2016

Casas-museus: a vida cotidiana de gente muito especial

Museu Casa de Jane Austen, Inglaterra

O encantador Museu Casa de Jane Austen, na vila de Chawton, Inglaterra, leva o visitante para dentro dos livros da escritora


Quando a gente pensa em museu, duas ideias vêm à cabeça. A primeira associação é a coisa antiga — e estão aí para provar os dísticos jocosos, e nem sempre lisonjeiros, sobre o assunto, como o clássico “quem vive de passado é museu".

O segundo conceito associado a museus é o da preciosidade, o objeto raro e tão relevante que — olha o lugar comum de novo — “merece estar em um museu”.

Museu Casa de Federico García Lorca, Granada, Espanha

A Huerta de San Vicente, casa de García Lorca em Granada, Espanha, é um museu que a gente visita com um nó na garganta


A associação com velharia já vem sendo suficientemente desmentida por notáveis instituições dedicadas a assuntos diversos — tecnologia, futebol, Língua Portuguesa — que fazem o maior sucesso.

Mas nem sempre a gente presta atenção aos chamados museus-casas, dedicados a preservar a memória mais doméstica e prosaica de grandes personagens.

Casa de Paul McCartney em Liverpool, Inglaterra

A casa de Paul McCartney em Liverpool e (abaixo) o Octagon, refúgio de Simón Bolívar durante o exílio em Curaçao 


Octagon, casa de Simón Bolívar em Curaçao

Todas as casas-museus visitadas pela Fragata

Totalmente na contramão do “espetacular” ou “precioso” que tendemos a colar no conceito de museu, são espaços geralmente íntimos, singelos e, pra mim, profundamente comoventes, exatamente por sua capacidade de realçar a condição humana de gente tão especial.

Pelo terceiro ano consecutivo, a Fragata está participando da blogagem coletiva que marca a #MuseumWeek, semana dedicada a celebrar os museus em todo o mundo, iniciada hoje. Nesta edição 2016, resolvi convidar vocês para uma visitinha às casas-museus de alguns personagens que adoro. Bora?

11 outubro 2015

Viagens inspiradas em livros - roteiros literários e jornadas sentimentais

Quai d'Orleans, Paris
Nas pegadas de Hemingway, Paris fica ainda mais especial. Na imagem, o Quai d'Orleans, em foto de abril de 2006

Tenho uma relação bastante ambígua com guias de viagem — e algumas prateleiras deles em casa. Gosto dos mapas, endereços e descrições objetivas, que ajudam a organizar a caminhada. Mas minha grande inspiração para sair pelo mundo é a Literatura. Minhas melhores jornadas são as viagens inspiradas em livros.

Um guia de viagem, tomado ao pé da letra, vira uma angustiante lista de tarefas, transformando cada jornada numa interminável gincana — na ansiedade de completar a lista de pontos turísticos, a gente não vê a vida nem sente a atmosfera ao redor.

Paris: margens do Sena e escadaria de La Madeleine
Paris nem precisava ser personagem de tantos livros para ser inspiradora. A cidade, porém, é uma das campeãs de citação no cinema e na literatura. Na imagem, as margens do Sena depois da chuva e as escadarias da Igreja e La Madeleine

Já uma grande história bem contada nos fornece as referências para uma jornada muito pessoal e cheia de possibilidades — eu vivo repetindo aqui que o melhor guia de viagem são essas tais de referências, né? São elas que nos levam pela mão nas explorações mais prazerosas e marcantes.

Mesmo os lugares mais arrebatadores precisam do encantamento que já trazemos conosco para ficarem realmente especiais.

Viagens inspiradas em livros: Ronda, Andaluzia, e Dürnstein, Áustria
Eu fui a Ronda (esq) inspirada em Por quem os sinos dobram, de Hemmingway. À pequenina Dürnstein, na Áustria, quem me levou pela mão foi Ricardo Coração de Leão, cujas aventuras eu conheci lendo Robin Hood

E quem melhor do que a Literatura para prover esse encantamento prévio? Se você já experimentou, sabe do que estou falando. Se ainda não, aposto que vai amar o mundo das viagens inspiradas em livros.

Veja alguns dos roteiros que a Literatura já me inspirou:

Viagens inspiradas em livros: Termas Romanas e Assembly Rooms, em Bath, Inglaterra
Foi arrepiante visitar as Termas Romanas de Bath e os Assembly Rooms, cenários de momentos decisivos de Persuasão, meu livro favorito de Jane Austen

26 junho 2005

Restaurante histórico em Lübeck: a casa dos homens do mar

restaurante da Schiffergesselschaft em Lübeck na Alemanha
Na sede da Liga dos Navegantes de Lübeck funciona um restaurante centenário e delicioso

Que tal jantar em um dos restaurantes mais antigos do mundo, na companhia de personagens que você aprendeu a amar em prazerosas leituras? Foi o que eu fiz em Lübeck, a encantadora cidade do Norte na Alemanha onde nasceu Thomas Mann.

O restaurante da Schiffergesellschaft é um dos melhores da cidade e está em atividade desde o Século 16. 

Sede da Schiffergesellschaft em Lübeck na Alemnha
A sede da Schiffergesellschaft é cenário frequente de Os Buddenbrook, de Thomas Mann

Schiffergesellschaft é a antiga liga dos armadores de navios de Lübeck, cidade que foi um poderoso centro de comércio marítimo, desde a idade média — não se intimide com o palavrão: em alemão, basta dividir o vocábulo que a pronúncia fica fácil. Diga schiffer+guéssel+schaft.

A liga (ou guilda, ou corporação) de Lübeck reunia os donos das frotas mercantes, os capitães e homens do mar da cidade e existe desde 1401. Sua sede e seu restaurante são um pouquinho mais jovens, de 1535.

Praça do Mercado de Lübeck na Alemanha
A Praça do Mercado é um bom lugar para comprar frutas, queijos e frios em Lübeck

Antes da refeição vale a pena dar uma olhada no edifício. Alguns salões ainda exibem a mobília original: mesas compridas de carvalho maciço, ladeadas por bancos com encostos cheios de entalhes. É como entrar no Século 16.

O restaurante, como recomenda a tradição germânica, funciona no porão (por isso você encontra tantos restaurantes antigos por lá que têm keller no nome. A palavra significa adega) e é decorado com objetos náuticos, réplicas de embarcações, mobiliário de madeira escura e grossas traves de madeira no teto. Mais naval do que isso, só se balançasse ao sabor da maré.

Na verdade, o restaurante da Schiffergesellschaft era um velho conhecido meu das páginas de Os Buddenbrook, o primeiro romance de Thomas Mann — um caso de amor à primeira página, pra mim. Tom Buddenbrook, alçado à condição de chefe da família e da casa comercial herdada dos antepassados, passou muitas noites por lá, discutindo e fechando negócios.

Arquitetura de Lübeck na Alemanha
Arquitetura de Lübeck na Alemanha
Arquitetura de Lübeck na Alemanha
Lübeck é uma cidade medieval preservadíssima e com uma arquitetura muito peculiar

Cheguei ao restaurante sem fazer reserva. Sentei-me numa mesinha de canto, iluminada por uma lanterna de navio. Beberiquei vinho branco, ainda atracada ao meu exemplar de Os Buddenbrook (uma edição espanhola que comprei no museu dedicado à família Mann, já que tinha que reler o livro, estando na cidade que o inspirou).

A proximidade de Lübeck com a foz do Rio Trave não deixa faltar frutos do mar no cardápio da casa. Pedi camarões do Mar do Norte — que estavam maravilhosos — e fiquei curtindo a atmosfera encantada do lugar.

Bem em frente, um grupo grande ocupava os bancos cheios de brasões em torno de uma mesa animada. Todos muito jovens, rindo muito e falando todos ao mesmo tempo. De repente, na hora da sobremesa, eles ficaram de pé e cantaram uma música quase celestial: eram os integrantes de um dos muitos corais que participavam de um encontro na cidade, naquele fim de semana. 

Lübeck é mesmo uma cidade mágica.

Restaurante do Schiffergesellchaft
Breitstraße 2, em frente à Igreja de St Jakobi

É uma instituição em Lübeck e se apresenta como "o restaurante mais antigo do mundo". O ambiente é precioso, a comida é ótima e o serviço é atencioso e o prato mais caro custa 19 Euros. É ou não é um lugar perfeito?

Mais sobre Lübeck 
 Alemanha 2 X 3 Brasil - como é ganhar na casa dos adversários
Mais sobre a Alemanha

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25 junho 2005

Brasil x Alemanha: como é ganhar na casa dos adversários

Outdoor em Berlim sobre a Copa das Confederações de 2005
Outdoor animando a torcida alemã para a Copa das Confederações 2005: "Nós somos bons"

Música deste post: Garotos, Leoni

O encanto de Lübeck me deixou num astral muito "oncinha pintada, zebrinha listrada e coelhinho peludo". Caminhando por An der Obertrave, a "rambla sul" do Rio Trave, fui chamada de volta à realidade por um grito inconfundível: "Tor!!!!".

Não era ninguém evocando deuses vikings (o do martelo é grafado com th). Ao menos, não conscientemente: eram "apenas" uns 60 alemães reunidos num bar, a meia quadra dali, assistindo Brasil x Alemanha e comemorando o gol de empate do time da casa, na semifinal da Copa das Confederações de 2005.

Lübeck na Alemanha
Eu estava curtindo o final de tarde à beira do Rio Trave, em Lübeck, quando o grito primal me trouxe à realidade

Nessas coisas de futebol, eu sou abusada: resolvi ver o jogo também, cercada pelos adversários. E lá fui eu para o boteco.

Como Lübeck fica quase na Dinamarca, a ideia de vikings não estava muito fora de lugar: todo mundo no bar parecia ter mais de dois metros de altura e até as canecas de cerveja deles pareciam ser maiores do que eu.

Sentei num cantinho discreto, meio de lado para a TV, pedi um gim e me aferrei à resolução de ser beeeeem invisível.

Quase pedi desculpas gerais quando, daí a pouco, o zagueiro alemão jogou Adriano pra fora de campo, na linha de fundo, e o árbitro marcou pênalti a favor do Brasil.

Tá certo que o empurrão foi dentro da área. Mas a queda, não: o Imperador caiu lá nas placas de propaganda. "Penalti, como assim?? Esse juiz filho da mãe tá querendo que eu leve uma surra", resmunguei, pedindo a segunda dose.

Lübeck na Alemanha
Lübeck na Alemanha
Lübeck na Alemanha
Agora, me diga se uma cidade linda dessas é lugar pra ficar brincando de Asterix entre os Godos

Minha resolução de invisibilidade foi posta à prova no pênalti seguinte, desta vez a favor da Alemanha. O "Ladrão!" escapou por descuido. Tratei de arrematá-lo com um sorriso e balançar a cabeça efusivamente, em sinal de aprovação. Mesmo assim, uns quatro ou cinco vikings ficaram me olhando torto.

Mais um gim e dois quase-gols de Robinho. No primeiro eu só suspirei — meio alto, acho. No segundo eu não pude evitar o "#$%&*#, seu perna-de-pau!". Mas como os alemães também estavam berrando horrores, eu apenas continuei a despejar impropérios, tomando a providência de apontar para o volante, que não tinha marcado direito o brasileiro.

O problema é que Adriano estava infernal naquele torneio e mandou uma bomba, para marcar o terceiro do Brasil.

Eu, que já dava os 2 x 2 como fato consumado, tinha baixado a guarda e acabei pulando da cadeira, gritando feito maluca.

Lübeck na Alemanha
Lübeck na Alemanha
Lübeck na Alemanha
Nem se a gente tivesse levado um sacode da Alemanha eu ficaria menos feliz de estar na encantadora Lübeck

A essa altura, olhava em volta e já via os demais frequentadores do bar com roupas de pele de urso e capacetes de chifre. Até que um deles, no apito final, me abriu um sorriso resignado e resumiu: "Era o Brasil, né?"

Tomei mais um gim, me sentindo numa cena de "Asterix entre os Godos" (eu nem era Asterix, era Ideiafix, sem poção mágica).

Lembrei do outdoor que vi em Berlin, no qual a Federação Alemã de Futebol tentava turbinar a autoestima da torcida: "Wir sind gut" (Nós somos bons"), afirmava o cartaz, estampando as estrelas de tricampeões do mundo no uniforme do time. "Aber wir sind besser" (mas nós somos melhores), cantarolava eu, a caminho do hotel, louca para ver o compacto dos melhores momentos na TV.

Mais sobre Lübeck  aqui no blog
Restaurante histórico em Lübeck - a casa dos homens do mar

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Lübeck na Alemanha - a cidade de Thomas Mann

Passeio à beira do Rio Trave em Lübeck na Alemanha
Passeio à beira do Rio Trave em Lübeck na Alemanha
Final de uma tarde de verão em Lübeck. As torres pontudas são da Petrikirche (dir) e da Marienkirche (igrejas de São Pedro e de Nossa Senhora)

Depois de uma semana maravilhosa em Berlim, só mesmo uma razão muito forte pra ir embora. E essa razão se chama Lübeck, a cidade de Thomas Mann, que parece de conto de fadas.

Fazia muito tempo que eu sonhava com uma visita a Lübeck para ver suas torres medievais e outros encantos.

Há mais de 20 anos, comecei a estudar alemão no Goethe Institut, onde a farta biblioteca me viciou em Thomas Mann e a revista do instituto, distribuída aos alunos, encarregou-se de me mostrar como a terra do escritor era linda.

Burgtor em Lübeck na Alemanha
Burgtor em Lübeck na Alemanha
A Burgtor ("Porta do Burgo") era um dos acessos à cidade medieval de Lübeck

Como Lübeck está a 320 km de Berlim, não tive nem dúvida de esticar a viagem até lá. E foi uma das melhores decisões que já tomei em uma viagem.

O percurso ferroviário entre Berlim e Lübeck é feito em pouco mais de três horas, contando a troca de trens em Hamburgo, uma conexão com intervalo de cerca de uma hora.

Torre da Igreja de São Tiago em Lübeck na Alemanha
Torre da Igreja de São Tiago em Lübeck na Alemanha
Petrikirche em Lübeck na Alemanha
Petrikirche em Lübeck na Alemanha
As torres pontudas das igrejas de Lübeck reforçam a sensação de que estamos num conto de fadas. As duas fotos do alto são da Jacobkirche (Igreja de São Tiago). As duas acima são da Petrikirche (Igreja de São Pedro)

Quando você for, preste atenção na hora de comprar a passagem, pois há paradas mais longas em Hamburgo que podem esticar seu tempo de viagem para mais de seis horas.

Veja minhas dicas da belíssima Lübeck, a cidade de Thomas Mann: