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| Juraci Dórea representado em cerâmica na entrada do museu. Você atravessa esse portão (à direita) e entra num universo raro e lindo |
Se você foi treinad@ a pensar em aridez e desolação quando ouve falar da Caatinga, está na hora de visitar o Museu de Arte Popular Juraci Dórea e descobrir a exuberância do Sertão — uma fartura que a geografia e a paisagem talvez não mostrem ao olhar apressado, mas que as vidas levadas a pulso esculpem, moldam, talham e colorem numa beleza e numa força de aluvião.
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| Amigos da casa, como o cantador Bule Bule, são homenageados dando nome a espaços do museu |
Um passeio que uniu beleza visual, aconchego de longos papos na varanda, gastronomia sertaneja dos deuses, o silêncio que só a distância do frenesi urbano sabe proporcionar — temperado com música de primeira.
Quem quiser ver uma Bahia bem diferente do cartão postal da beira-mar — e tão linda quanto — vai adorar programar um fim de semana no Museu de Arte Popular Juraci Dórea (sim, porque este é um museu que recebe seus visitantes tão completamente que tem até acomodações para 15 hóspedes de cada vez).
Veja como foi a minha super deliciosa visita a esse tesouro sertanejo:
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| Zé das Bonecas ou Zé Taurino, que conheci em Maragogipinho, também tem seu espaço no museu |
Museu de Arte Popular Juraci Dórea
A visita ao Museu de Arte Popular Juraci Dórea é uma experiência inteira. Começa no percurso de 320 km entre Salvador e a Fazenda Garajau, vendo a paisagem mudar da sinuosa suavidade do Recôncavo para o cenário rugoso que margeia a Estrada do Feijão (Rodovia BA-052), enquanto a gente vai se embrenhando na terra do mandacaru e da jurema — um horizonte verde nesse tempo de chuva.
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| São mais de 2.500 obras de arte expostas em salas e ao ar livre |
Uma experiência que prossegue com as paradas na estrada para provar delícias regionais (e comprar queijo de coalho, requeijão, carne de sol e doce de umbu, pra abastecer a despensa de casa e fazer o gosto do passeio se esticar pelas próximas semanas).
Mas, se o caminho é parte da graça da coisa, espere só até chegar à Fazenda Garajau, sede do museu, e dar de cara com a casa avarandada que espera com o almoço na mesa, cercada de árvores e obras de arte, depois de vencer os cerca de 30 km de estrada de terra do último trecho da viagem.
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| Guimarães Rosa, Pepe Mujica e Graciliano Ramos são lembrados em letreiros espalhados pelo museu. O GR que assina a frase acima é o autor de Grandes Sertões: Veredas |
A arte popular ocupa terreiros, salões, varandas e jardins, em perfeita harmonia com a paisagem sertaneja. E você vai reparar (espero que repare) que aqui os artesãos e artesãs têm nome: Zezinho de Tracunhaém (PE), Zé Taurino de Maragogipinho (BA), Acácia de Rio de Contas (BA), Muquém de União dos Palmares (AL), Maria do Livramento de Rio Real (BA)...
O reconhecimento aos criadores da beleza não fica só nos mitológicos Mestre Vitalino de Caruaru e seu discípulo Manoel Eudócio, lindamente representados no acervo — ou na homenagem a Juraci Dórea, que dá nome ao museu.
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| Acima, obras de Mestre Vitalino. No centro e no alto, trabalhos de Manoel Eudócio |
É meio inevitável não lembrar da Casa do Rio Vermelho, onde viveram Zélia Gattai e Jorge Amado. Afinal, a Fazenda Garajau também nasceu como um lugar onde a presença dos amigos é elemento essencial.
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| Obras de Zezinho de Tracunhaém |
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| Muquém de União dos Palmares |
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Neguinha e Naná de Belo Jardim (PE) |
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| Maria do Livramento de Rio Real |
E quando a coleção de artesanato (e aqui a designação não reduz e aparece com a mesma estatura de outras artes) já não cabia mais dentro de casa, o acervo começou a ser exibido à sombra das juremas. Até que um dia um visitante notou: “Isso não é uma casa, é um museu”. Foi o que bastou: “Pronto, vai ser museu”, conta Aécio.
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| Me apaixonei por essa Turma de João das Alagoas, de Capela (AL) |
Dos primeiros passos da fazenda ao Museu de Arte Popular Juraci Dórea, hoje uma fundação, lá se vão mais de duas décadas.
Como visitar o Museu de Arte Popular Juraci Dórea
A casa pode ter virado museu, mas a hospitalidade de Selma e
Aécio continua a mesma, pois as visitas são gratuitas.
Grupos de estudantes da região são recebidos em visitas monitoradas. Oficinas de pintura reúnem jovens, crianças e mulheres que aprendem a explorar a criatividade.
Em
ocasiões especiais — como a Semana Mundial dos Museus — tem festa no terreiro
com o luxo de uma apresentação Bule Bule (repentista, cordelista, sambador,
cantador e pesquisador das tradições sertanejas) e das Sambadeiras de Antônio
Cardoso, cidade a 200 km da fazenda.
E foi dessa festa deliciosa e contagiante que eu participei no último fim de semana.
Ainda que faltem ao Museu Juraci Dórea as prateleiras e
vitrines de um museu convencional, não se engane: tudo lá é feito com um
capricho comovente. O acervo é exibido com esmero, bem identificado,
contextualizado e com uma iluminação noturna que faz a gente suspeitar de
magia.
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Luxo é balançar com as sambadeiras e música de Bule Bule—e ainda
ter uma tarde inteira pra ouvir os causos desse poeta que é um patrimônio da
Bahia |
Recomendo que você vá ao museu para um fim de semana. Como já disse mais acima, o lugar tem acomodações para receber grupos de até 15 pessoas (neste caso, é cobrada uma tarifa que inclui hospedagem e alimentação). Para combinar a visita, entre em contato pelo Instagram https://www.instagram.com/museujuracidorea/
O que ver no Museu Juraci Dórea
Você vai ver obras de arte popular garimpadas por Selma e Aécio em diversas regiões do Brasil, marcadamente no Nordeste. Cerâmicas, esculturas em madeira, peças de couro, bordados, pinturas, fotografias, objetos sacros e peças indígenas compõem um painel que continua em transformação — basta que Aécio e Selma deem uma viajadinha.
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| Formação de acervo ao vivo: Cebion com a mão na massa |
Às vezes, os acréscimos ao acervo ocorrem à vista do visitante, como a transformação de um tronco de árvore morta em esculturas pelo artista (e maratonista) Cebion, de Ruy Barbosa, que eu testemunhei durante a minha estadia na fazenda.
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| A artista plástica Lucy Berenguer orientou uma oficina de pintura para o Grupo de Mulheres Mãos Criativas |
Juraci Dórea, o patrono do museu
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| Aécio Pamponet, Juraci Dórea, João (filho de Juraci) e Bule Bule: muita história |
Nascido em Feira de Santana, Juraci Dórea é um dos artistas mais importantes da Bahia contemporânea. Sua obra bebe diretamente expressa da alma do sertão, da cultura popular e da tradição das ilustrações de cordel.
Seu trabalho mais conhecido é o Projeto Terra, iniciado nos anos 1980, em que esculturas e instalações foram inseridas diretamente na paisagem sertaneja, utilizando couro, madeira e outros materiais associados ao universo do vaqueiro nordestino.
A força simbólica desse projeto levou Juraci Dórea a alcançar reconhecimento internacional, incluindo participação de destaque na Bienal de Veneza de 1988.
Como chegar
A Fazenda Garajau fica na zona rural entre Ruy Barbosa e Macajuba, a cerca de 320 km de Salvador. O Google Maps dá o caminho das pedras. Pela Estrada do Feijão, preste atenção quando chegar à altura do Povoado de Cancelas, pois a entrada para Garajau está logo adiante, uma estrada de barro.
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