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| Jaguaripe é uma perolazinha do Recôncavo |
Minha viagem a Jaguaripe foi uma etapa do projeto Expedição
Kirimurê, iniciativa ligada ao movimento saveirista que busca contribuir para a
preservação dos saveiros e para a divulgação das belezas únicas do Recôncavo, pátria
dessas embarcações essenciais na formação da identidade baiana.
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| Saveiros e Jaguaripe: pense numa combinação perfeita |
Já tinha visitado a cidade algumas vezes, sempre fui fã, mas fazia três décadas que não aparecia por lá. Jaguaripe fica a cerca de 100 km de Salvador (pra quem corta caminho atravessando a Baía de Todos os Santos de ferryboat) e continua encantadora.
É verdade que o melhor dessa viagem foi chegar lá a bordo do
centenário saveiro Sombra da Lua, mas ainda que você não tenha a sorte,
recomendo muito que você coloque Jaguaripe na sua lista de desejos (vem aí um post om dias práticas da cidade). Você vai
encontrar muitas coisas interessantes por lá.
Veja essas dicas:
Um pouquinho sobre Jaguaripe
Era a pequena “metrópole” de um território que se desdobraria em municípios hoje muito populosos, como Nazaré das Farinhas, Maragojipe, Aratuípe e Santo Antônio de Jesus.
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Prepare-se para as ladeiras de Jaguaripe |
Jaguaripe foi a primeira vila do Recôncavo (elevada a essa condição em 1693), originada em uma povoação de jesuítas fundada na segunda metade do Século 16 — quando a ordem passou a expandir as missões de catequese dos povos originários. Antes disso, era território Tupinambá, povo que deu o nome ao lugar (Jaguaripe significa rio das onças na língua indígena) e à Baía de Todos os Santos (Kirimurê, ou grande mar).
A localização estratégica de Jaguaripe a converteu num importante entreposto da rota entre Salvador e o Recôncavo, levando e trazendo farinha de mandioca, hortaliças e madeira.
E esse vai e vem não existiria sem os saveiros, alguns construídos lá mesmo — até hoje, a cidade tem forte ligação com a tradição saveirista.
O que fazer em Jaguaripe
Ver o patrimônio histórico de Jaguaripe
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| Paço Munipal de Jaguaripe, onde já funcionou a temida Prisão do Sal |
Não espere um Pelourinho. A arquitetura urbana em Jaguaripe expressa o uso contínuo de seu casario, com muitas alterações nas fachadas, ainda que a verticalização passe longe da paisagem (empinadas, aqui, só as ladeiras). O olho atento, porém, ainda desvenda detalhes que entregam a idade das construções: uma janela ou um arco de porta lembram que a cidade viveu seu apogeu nos século 17 e 18.
Três edifícios históricos se destacam na paisagem de
Jaguaripe. O primeiro recebe os visitantes logo na porta da cidade. O Paço
Municipal, antiga Casa de Câmara e Cadeia (instituição administrativa típica da colônia) é uma das mais antigas do Brasil. A construção é do Século 17, postada na beira do Rio Jaguaripe, bem ao lado do
atracadouro principal.
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| A Igreja do Rosário aparece ao longe, à esquerda. No Centro, o Paço. À direita, a Igreja da Ajuda |
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| O Paço é uma das casas de Câmara e Cadeia mais antigas do Brasil |
Seus porões abrigaram a chamada “Prisão do Sal”, cercada de lendas. Dizem que os presos acorrentados às paredes das masmorras eram atormentados pelas sucessivas inundações das celas, a cada subida da maré — fala-se até em afogamentos.
Outras duas construções coloniais notáveis em Jaguaripe são a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Ajuda (final do Século 17) e a Igreja do Rosário (Século 18).
A Matriz fica no ponto mais alto da cidade, com vista para o
rio. Seu estilo dominante é o rococó. Junto com a Casa de Câmara e Cadeia, ela
é uma logomarca da paisagem de Jaguaripe.
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| Matriz da Ajuda, do Século 17 |
A Igreja do Rosário também está no alto de uma colina, ainda que mais escondidinha para quem olha do rio. As igrejas devotadas a Nossa Senhora do Rosário pertenciam, geralmente, a irmandades de homens e mulheres negros/as, escravizados ou libertos. A de Jaguaripe não é exceção.
Uma dica: quando estiver caminhando pelas ruas de Jaguaripe, não faça como eu, sempre devaneando com a morte da bezerra e desatenta ao calçamento irregular. O resultado é que tomei um quedaço (oh, novidade!) na escadaria do Paço Municipal. Pra quem já caiu em um bueiro em Cartagena (😊), acho que estou no lucro, mas o joelho está ganindo até hoje.
Visitar um estaleiro tradicional
Pra conhecer um pouquinho mais da tradição saveirista, faça uma visita ao Estaleiro Jaguaripe, que trabalha principalmente com a reforma dessas embarcações e eventual construção de novos saveiros. Mas não basta olhar. O melhor é bater um papo com Ubiraci Claudio Souza Portugal, Bira, dono da casa, que toca o empreendimento na base da paixão e da teimosia.
Aos 45 anos, nascido e criado em Jaguaripe, Bira montou o estaleiro há 15 anos, quando decidiu construir um saveiro de 9 metros, chamado de Mestre Carlito — homenagem ao pai, mestre saveirista de quem aprendeu o ofício. Essa embarcação ainda está viva, navegando pelas águas de Kirimurê.
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| Ver Pedrinho e seu saveiro Traquino faz bem pra o coração |
Antes, lá pelos 20 anos de idade, o mestre carpinteiro já havia estreado na arte da construção naval com um saveiro de 4 metros, embarcação que inspirou o maior encanto que você vai ver no Estaleiro Jaguaripe: o Traquino, saveiro que Bira construiu para o sobrinho Pedrinho.
Ver Pedrinho — compenetrado e preciso nos seus 9 anos de idade — manejando o Traquino pelas águas do Rio Jaguaripe faz bem pra o coração. É o futuro dos saveiros e dos saveiristas ao vivo.
Pra fazer contato com Bira, o WhatsApp é o +55 71 9901-9215.
Fazer um passeio de canoa para ver os guarás
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| Os guarás fazem um espetáculo lindo no final da tarde |
Os guarás são aves endêmicas de manguezais — a massiva presença deles atesta a saúde do ecossistema na área — e dividem o espaço com as garças branquinhas e esguias que também vivem nas margens do rio.
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| Todo mundo pronto pra um merecido soninho na Ilha dos Guarás |
O melhor jeito de ver os guarás (e as garças, tadinhas, que também são lindas) é a bordo de uma canoa silenciosa. No caminho para a ilha, a gente vai seguindo as esquadrilhas de aves que voam em fila indiana até seu refúgio. Mas nada prepara a gente para a revoada dos bichinhos com a aproximação da canoa, uma explosão vermelha que me arrancou um grito de encantamento.
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| A presença massiva dos guarás atesta a saúde dos manguezais próximos a Jaguaripe |
O espetáculo dos guarás é tão bonito que quase não dá vontade de fazer fotos ou vídeo — já faz tempo que entendi que há belezas que só ficam nítidas cara a cara.
Fizemos o passeio à Ilha dos Guarás com Tote Canoeiro (WhatsApp +55 71 9623-5155). As canoas comportam seis a sete pessoas e ele cobra R$ 15 por passageiro. É imperdível!
Esticar até Maragogipinho, maior polo cerâmico da América Latina
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| Maragogipinho fica na margem de um braço do Rio Jaguaripe |
O povoado é pequenininho (3 mil moradores), plantado à beira de um braço do Rio Jaguaripe pelo qual, nos velhos tempos, subiam e desciam saveiros que escoavam a produção local de cerâmica. Cerca de 200 olarias ainda estão a pleno vapor em Maragogipinho, preservando a tradição ensinada pelos jesuítas desde o Século 16 e sincretizada com a estética africana e indígena que é marca do Recôncavo.
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| Nossas senhoras barrocas, santos católicos e uma Iansã, obras do artista Rosalvo Santana |
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| As baianas de Zé Taurino são famosas |
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| A produção de Maragogipinho é bem diversa |
A grande vitrine da arte de Maragogipinho é a Feira dos Caxixis, uma verdadeira celebração da cultura popular realizada na Semana Santa, em Nazaré das Farinhas, a atual metrópole daquele pedaço de Recôncavo, a 10 km do povoado. (Caxixi é como se chamam peças decorativas de cerâmica).
Mas é muito bacana ver o ofício dos ceramistas em seu berço. Maragogipinho vive para seus ateliês e olarias e não impõe limites à criação, indo da arte sacra aos utensílios domésticos, da miniatura ao monumental, do cofre de porquinho às esculturas sofisticadas.
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| Zé Taurino recebe visitantes e ensina sua arte |
Melhor ainda é ver e aprender com os artistas locais. Gente com a generosidade de Zé Taurino, um dos mais conhecidos ceramistas de Maragogipinho, que recebe visitantes em seu ateliê para contar a história, explicar a técnica e orientar as mão desajeitadas na modelagem do barro e manejo do torno — eu consegui fazer uma cumbuca com vocação para fruteira, acreditem...
Taurino Silva é um patrimônio de Maragogipinho e do Recôncavo. Prestes a completar 70 anos, ele na olaria e molda o barro desde criança. Uma marca de sua arte são esculturas de baianas em grande escala que lhe valeram o título de “Zé das Baianas”.
Acompanhe o trabalho de Taurino pelo Instagram @seuzedasbahianas
Preste atenção, também às imagens sacras de Rosalvo Santana, outro renomado artista de Maragogipinho. Ele geralmente trabalha só com encomendas, mas os visitantes são bem-vindos a sua casa/ateliê (WhatsApp +55 75 8823-7616).
Visitar o ateliê do artista Almir Lemos
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| Almir Lemos mostra sua arte e compartilha reflexões sobre a vida em Lugar Nenhum |
Almir é uma tradução contemporânea e cosmopolita da tradição secular da cerâmica de Maragogipinho. Ele recebe os visitantes com uma longa e paciente explicação sobre seu processo criativo e sua conexão com a terra, que permanece viva em suas obras — literalmente, pois o artistas não queima suas peças.
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| Sem a queima, a terra permanece viva na arte de Almir |
À imprensa, Almir já declarou que é “apenas um condutor” que não direciona o barro bruto para as formas que adquirem em suas mãos. E enquanto Almir nos leva para passear por sua filosofia de vida, vai crescendo o encanto pelas formas, texturas e nuances de cor que marcam seu trabalho.
A cerâmica está na vida de Almir desde sempre, ofício herdado da família de artistas do barro. Hoje, é um reputadíssimo criador, com mostras concorridas em galerias nacionais.
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