25 abril 2026

Expedição a Jaguaripe com o Saveiro Sombra da Lua

Saveiros em Jaguaripe na Bahia
A bela Jaguaripe é uma grande moldura para os saveiros


Música deste post: Into the Mystic, Van Morrison


Todo mundo aqui tá careca de saber que a Fragata Surprise namora o Yellow Submarine. Mas somos todos adultos e preciso contar a vocês sobre o saveiro Sombra da Lua, a nova paixão deste blog. 

Fui apresentada a ele há alguns meses, em uma jornada ao Museu do Recôncavo Wanderley de Pinho, e tornamos a nos encontrar em uma especialíssima Expedição Kirimurê à cidade histórica de Jaguaripe, no Recôncavo Baiano, durante o feriadão de Tiradentes.

Saveiro Sombra da Lua em Maragogipinho na Bahia
Saveiro Sombra da Lua em Maragogipinho na Bahia
O Sombra da Lua chegando a Maragogipinho: é muito guapo!

Foram quatro dias de absoluto deleite, velejando pela Baía de Todos os Santos e Rio Jaguaripe, provando os frutos do mar do Recôncavo e conhecendo mais de perto a centenária tradição da cerâmica do povoado de Maragogipinho — reconhecido pela Unesco como o maior polo desta arte na América Latina.

Tudo perfeito: roteiro, elenco, direção, locações... Mas o melhor é o ritmo. Parece que a sapiência secular dos saveiros contagia tudo. A respiração desacelera, a contemplação sai da batida de videoclipe. A gente se desautomatiza das telas dos eletrônicos pra se concentrar na grande tela do mundo lá fora. 

Saveiros não são lentos. Eles são pacientes. E aquele compasso sabe ser hipnótico, viu?

Saveiro Sombra da Lua
Saveiro Sombra da Lua
O dueto do Sombra com o vento deixa o canto das sereias da Odisseia no chinelo

E ainda nem contei sobre a espetacular trilha sonora. O Sombra da Lua viaja sem música, mas faz um dueto afinadíssimo com o vento (João Gilberto na veia). Se calhar de a velejada acontecer sob um fiapo de quarto-crescente e uma passeata interminável de estrelas, não tem alma frenética que não se emende um pouquinho (a minha, incorrigível, está em franca recuperação).

Veja como foi essa viagem mágica:

Expedição Kirimurê - Jaguaripe e região


Expedição Kirimurê


A viagem a Jaguaripe e Região foi uma etapa do Projeto Expedição Kirimurê, iniciativa de apaixonados por saveiros para dar visibilidade a esse patrimônio da Bahia.

As jornadas são sempre feitas no saveiro Sombra da Lua, construído em 1923, tombado como Patrimônio Histórico Nacional e lindamente restaurado por iniciativa da Associação Viva Saveiro. 

Saveiro É da Vida
Em parte da expedição, o Sombra teve a companhia do saveiro É da Vida, também restaurado com apoio da Associação Viva Saveiro 

Navegando no Sombra, atravessamos a Baía de Todos os Santos, passamos pela Ilha de Itaparica e seguimos a Contra-Costa (o trecho de mar que passa atrás da ilha) para entrar no Rio Jaguaripe, em cujas margens está a cidade histórica.

Saveiros em Jaguaripe
Igreja Matriz do Amparo em Jaguaripe na Bahia
A Matriz do Amparo de Jaguaripe é do Século 17

A etapa de Jaguaripe teve 15 passageiros e dois tripulantes e durou quatro dias (de 18 a 21 de abril). Por terra, Jaguaripe está a 100 km de Salvador (se você for pelo ferryboat). Esticamos os passeios ao povoado de Maragogipinho, tradicional centro ceramista (a 22 km de Jaguaripe) e à incrível “Ilha dos Guarás”, banco de areia coberto de árvores onde centenas de aves se reúnem ao cair da tarde.

Revoada de guarás-vermelhos no Rio Jaguaripe
Revoada de guarás ao cair da tarde
Mestre ceramista Zé Taurino de Maragogipinho
O mestre ceramista Zé Taurino, de Maragogipinho, mostra seu ofício aos integrantes da expedição

As expedições Kirimurê têm como centro o saveiro Sombra da Lua (foi nele que fomos e voltamos). De Jaguaripe a Maragogipinho, fomos pela estrada e voltamos navegando o braço de rio que liga o povoado à cidade (uma velejada inesquecível). Para ver os guarás no meio do rio, fomos de canoa.

Cidade de Itaparica na Bahia
Itaparica no horizonte
Rio Jaguaripe
Euzinha aproveitando o Rio Jaguaripe em grande companhia

Jaguaripe (Rio das Onças, na língua indígena) é uma lindeza com origens no Século 16, quando os jesuítas partiram pelo Recôncavo fundando assentamentos para contatar e catequizar os Tupinambás —  habitantes da área desde pelo menos 500 anos antes da chegada dos europeus. 

É apontada como a primeira vila fundada no Recôncavo.

 A cidade tem forte tradição saveirista e hoje ainda há pelo menos um estaleiro tradicional em operação em Jaguaripe — que nós tivemos a oportunidade de visitar.

Nos próximos posts eu conto mais sobre Jaguaripe, Maragogipinho e sobre a “Ilha dos Guarás”.

Saveiro Traquino em Jaguaripe
Pedrinho é o futuro dos saveiros

Os saveiros e o Recôncavo


Acho que não é exagero dizer que os saveiros são um elemento fundamental na formação da identidade do Recôncavo. Palmilhando os 1.233 km² da Baía de Todos os Santos, desde a colônia, essas embarcações foram muito além de cumprir um papel funcional/logístico na nossa história.

Levando e trazendo muito mais do que cargas, os saveiros foram uma amálgama dos modos de viver das gentes do entorno de Kirimurê (o grande mar, como os Tupinambás chamavam a Baía).

Estaleiro tradicional em Jaguaripe na Bahia
Um resistente estaleiro preserva a tradição saveirista de Jaguaripe
 
Mas, como sempre acontece, a frieza da economia atropela o simbólico sem qualquer cerimônia. E a “facilidade” do transporte rodoviário, a partir da segunda metade do Século 20, inspirou a objetividade a desdenhar os saveiros.

Das cerca de 1.200 embarcações do tipo que já encantaram a Baía com suas velas brancas, hoje resistem cerca de 20, em diversas condições de conservação. 

Saveiros em Maragogipinho
O Sombra e o É da Vida formam uma imagem encantadora, né?
Rio Jaguaripe

Já falei que os saveiros são pacientes. Mas outra coisa que eles são é teimosos, capazes de reunir em torno deles uma comunidade de apaixonados que restaura, divulga, apoia os remanescentes mestres da carpintaria e da navegação e estimula a formação de futuros saveiristas.

Uma dessas organizações é a Associação Viva Saveiro, criada em 2008, motor (ôps 😁) do Projeto Expedição Kirimurê.

Da labuta desses voluntários vem a esperança de que esses barquinhos encantadores continuem a navegar e a contar histórias.


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Um comentário:

  1. Quem escreve porque viu, viveu e experenciou tem outro conteúdo, outra qualidade de texto e conexão. Parabéns!

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