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| Tendo a achar que o velho Odisseu ia curtir esse passeio pelas Ilhas da Baía de Todos os Santos |
Grandes odisseias são fantásticas. Ultimamente, porém, tenho me encantado com aventuras mais caseiras. Como a incursão de saveiro às ilhas da Baía de Todos os Santos que fiz no feriadão do Dois de Julho, data em que a Bahia celebra a consolidação da Independência do Brasil.
Essa nova etapa da Expedição Kirimurê foi um jeito bem gostoso de explorar praias e povoados que vivem na cadência das marés e em um tempo próprio, apesar da proximidade com o burburinho de Salvador. Afinal, a ideia das expedições é essa mesma: descobrir pedacinhos do Recôncavo sem pressa e sem furdunço.
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| A fofa Bom Jesus dos Passos (Bomja, para os íntimos) foi nossa base nesta expedição |
Navegando no saveiro Sombra da Lua (nova paixão da Fragata Surprise) e fazendo base na Ilha de Bom Jesus dos Passos — que tem ótima infraestrutura para o turismo — exploramos as ilhas dos Frades, de Maré e de Maria Guarda, além de uma paradinha na Ilha das Vacas, pra contemplar uma Baía de Todos os Santos mais íntima e acolhedora.
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| Ilha de Maria Guarda: seja lá quem for o responsável por essa inscrição, está coberto de razão |
Passeio pelas ilhas da Baía de Todos os Santos
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| A Baía de Todos os Santos tem 56 ilhas. Nessa expedição, visitamos cinco delas |
A Baía de Todos os Santos tem 56 ilhas. A mais famosa — e também a maior — é Itaparica. Nosso passeio com o saveiro Sombra da Lua visitou cinco delas. A base da viagem foi a simpaticíssima Ilha de Bom Jesus dos Passos (que os locais chamam de Bomja). O roteiro foi assim:
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| Um dia lindo aguardava nosso embarque no Terminal Náutico da Ribeira, seguindo a tradição. Como diz o Hino da Bahia, no Dois de Julho até o sol é brasileiro |
1º dia – Partida de Salvador, saindo do Terminal Marítimo da Ribeira. Fizemos uma parada na Ilha de Maré para visitar um estaleiro artesanal e almoçar, a bordo do Sombra, a lauta feijoada preparada por Gel. A chegada a Bomja aconteceu por volta das 14h30.
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| Praia Grande, na Ilha de Maré, foi nossa primeira parada |
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| A intrépida tripulação do Sombra: Gel, que manda bem no saveiro e na feijoada (em primeiro plano) e Mestre Jorge, nosso capitão |
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| Em Paramana, embarcamos no Thalia Victoria para um banho de mar nas piscinas naturais |
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| A Ponta de Loreto e a capela do Século 17 |
3º dia – Visita à Ilha de Maria Guarda e à Ilha das Vacas, onde estava previsto o banho de mar (frustrado pelo mau tempo)
4º dia – Retorno a Salvador, chegando a tempo pra ver a Seleção perder para a Noruega nas Oitavas de Final da Copa.
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| Ilha de Maria Guarda |
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| O tempo carrancudo frustrou o banho de mar nessa simpática prainha na Ilha das Vacas |
Um dia muito especial, pra começar
Zarpamos num Dois de Julho. Tá certo que esse é um dia de empurrar o carro da Cabocla, da Lapinha ao Terreiro. Este ano, porém, minha comemoração da vitória final dos baianos contra os portugueses — a consolidação da Independência proclamada por Pedro de Bragança — foi nos domínios de João das Botas.
Acho que o comandante da flotilha baiana na Guerra de Independência ficaria feliz de ver um saveiro teimoso içando sua vela num Dois de Julho, dois séculos depois do bem sucedido bloqueio naval contra as forças portuguesas. A empreitada, crucial para a vitória baiana contra os colonizadores, reuniu saveiros e outras embarcações de pequeno porte, impedindo o abastecimento inimigo e fortalecendo a resistência.
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| O centenário saveiro Sombra da Lua é remanescente e herdeiro de uma linhagem que ajudou a inventar a Bahia |
O saveiro Sombra da Lua, nosso cúmplice e condutor nessa viagem pelas ilhas da Baía de Todos os Santos, é um bichinho tenaz, como devem ter sido seus antepassados que combateram no Bloqueio da Baía e na Batalha de Itaparica (7 de Janeiro de 1823).
Construído em 1923, o Sombra é “um dos últimos saveiros que preservam na íntegra as características originais de um saveiro de vela de içar de um mastro, típico do Recôncavo Baiano”, como explica Pedro Carlos Bocca, um dos atuais proprietários da embarcação. O Sombra da Lua é tombado pelo Patrimônio Histórico Nacional desde 2012 e foi totalmente restaurado em 2024.
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| A Igreja de Bom Jesus dos Passos recebe os visitantes na porta de casa, em frete ao atracadouro de Bomja |
O que ver e o que fazer nas Ilhas da Baía de Todos os Santos
Bom Jesus dos Passos
Oficialmente, Bom Jesus dos Passos é um bairro de Salvador.
Ainda antes de desembarcar, porém, a gente já percebe que está chegando a um
mundinho bem diferente.
A antiga povoação tupinambá, chamada Pataíba Açu, começou a ser colonizada ainda no século 16, quando se tornou um importante ponto de apoio para as embarcações que cruzavam a Baía de Todos os Santos.
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| Bomja é pequenininha e muito bem cuidada |
Com apenas 1.600 moradores, Bomja é bem sossegada. Totalmente livre de automóveis, os únicos veículos motorizados que você encontrará na vila são o carrinho de golfe que funciona como táxi local e algumas motos.
Caminhar por Bomja, porém, está longe de ser um sacrifício.
A vila é praticamente toda plana, bem cuidada e muito arborizada. Além disso, é
minúscula: tem apenas 0,45 km². Para você ter uma ideia, cabem nove Bomjas no
território de Copacabana, no Rio, e três no bairro da Barra, em Salvador.
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| Caminhar por Bomja não será um sacrifício |
A imagem mais reconhecível da ilha é a Igreja de Bom Jesus dos Passos, do século 18, que fica de frente para o atracadouro público. Dali até a Praia da Pontinha, a mais famosa da ilha, são apenas 1,2 km. Basta seguir caminhando, sem pressa, no ritmo que Bomja inspira a todo mundo que chega.
Ilha dos Frades: Loreto, Paramana e piscinas naturais
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| A capelinha de Loreto é muito cênica, né? |
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| A bilheteria de Loreto fica no atracadouro |
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| A Capela de Nossa Senhora do Loreto está muito em preservada |
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| Barreiras impedem a aproximação de embarcações da Praia de Loreto, que integra uma área de preservação |
Uma trilha pavimentada e plana, com pouco mais de um quilômetro, leva ao principal destino deste passeio pela Ilha dos Frades. A pequena Paramana tem cerca de 900 habitantes, uma praia de águas calmas — daquelas em que a faixa de areia se estende a perder de vista durante a maré baixa — e alguns bares simples, como o de Celi, onde almoçamos muito bem.
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| Plana e pavimentada, a curta trilha entre Loreto e Paramana não exige esforço |
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| Praia de Paramana |
Antes do almoço, porém, embarcamos numa lanchinha para conhecer as piscinas naturais de Paramana, que se formam na maré baixa (grande banho de mar). Negociamos o aluguel da embarcação ali mesmo, na praia. Pagamos R$ 320 pela Thalia Victoria, que nos levou às piscinas e, depois, de volta a Bom Jesus dos Passos — o Sombra da Lua não teria como atracar em Paramana.
Maria Guarda e Ilha das Vacas
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| A sossegada Ilha de Maria Guarda. Do outro lado da água está a Ilha de Bimbarras, hoje um condomínio de luxo |
O banho de mar do dia até que prometia: uma praia deserta na
Ilha das Vacas, que fica bem ao lado de Maria Guarda. São Pedro, porém, não
estava de acordo e mandou chuva. Pena, viu, porque a prainha tinha uma cara muito
convidativa.
A Ilha das Vacas é uma fazenda particular e não tem população fixa. Faz parte do município de Madre de Deus.
Dicas práticas de Bom Jesus dos Passos
Como chegar a Bomja
Não existe transporte regular de Salvador para a Ilha de Bom Jesus dos Passos. Viajantes independentes (e sem barco) precisam ir da capital até Madre de Deus, a 65 km de distância, e de cujo terminal marítimo da cidade partem barcos de linha a cada 30 minutos.![]() |
| O Sombra lindão diante do atracadouro de Bomja |
A passagem de Madre de Deus a Bomja custa R$ 6 + R$ 1,50 de taxa de embarque. As partidas são a cada 30 minutos, das 6h às 20h. A travessia
dura de cerca de 15 minutos.
Eu comi mosca e não anotei o Zap de Carlos André, que opera o táxi/uber da ilha (o carrinho de golfe que é uma mão na roda pra levar e trazer bagagens). Mas isso não vai ser problema: ele está sempre atento à movimentação no atracadouro e aposto que vai aparecer assim que você desembarcar 😉.
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| O carrinho de golfe é o táxi/uber de Bomja |
Onde comer em Bomja
Bomja é pequenininha, mas tem muitas opções de restaurantes,
com cardápios (naturalmente) voltados para os frutos do mar.
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| Jantei muito bem no restaurante do Bomja Village, que também atende a não-hóspedes |
Experimentei o restaurante da nossa pousada, a Bomja Village. Aprovei muito o escondidinho de siri catado com purê de aipim, porção pantagruélica para três pessoas. Meu jantar custou R$ 39.
Também gostei muito do espaguete com camarões do Na Larica
Gourmet (na Praça Comendador Neiva, ao lado da igreja). Meu jantar, sem bebida alcoólica,
custou R$ 80.
Na nossa última noite, experimentamos o Restaurante Das Águas Cozinha Nativa e Mediterrânea, que funciona no espaço gastronômico da Marina do Brito. O espaço faz o estilo rústico/elegante e serve moquecas em porções alentadas. Gostei muito da casquinha de siri e da caipirinha de caju, mas nem tanto da moqueca de polvo. Minha refeição custou R$ 200.
Hospedagem em Bomja
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| A pousada Bomja Village é confortável e sossegada |
A infra hoteleira de Bom Jesus dos passos não é grande, mas há boas opções na ilha, entre pousadas e casas de aluguel por temporada.
Nós nos hospedamos na Pousada Bomja Village, apontada como a
melhor da vila. E ela é realmente bem bacaninha. Os apartamentos, todos
térreos, ficam distribuídos em torno de um jardim bem cuidado, onde também ficam
a piscina, um parquinho infantil, o restaurante e duas varandas confortáveis.
O interior da pousada é muito silencioso e a equipe da casa é
super atenciosa. O WiFi é meio de veneta, mas quebra o galho.
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| Meu apartamento no Bomja Village |
Os quartos do Bomja Village são agradáveis e amplos, com TV e ar condicionado. O banheiro tem aquela cara de novinho e bem cuidado que eu gosto, com direito a secador de cabelos e água quente que não se faz de rogada pra dar as caras no chuveiro.
O café da manhã está incluído na diária e tem opções de
pães, frutas e pratos quentes (os ovos e as tapiocas preparados na hora). O
restaurante da pousada também recebe não-hóspedes.
Fiquei em um apartamento individual, com diárias de R$ 350. As diárias nos apartamentos duplos custam R$ 450 e nos triplos R$ 550. Para reservas e mais informações, entre em contato pelo telefone/WhatsApp: (71) 99925-4142. O Instagram é @bomjavillage.
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| Ilha de Maré |
Expedições Kirimurê e o saveiro Sombra da Lua
O Saveiro Sombra da Lua tem realizado expedições culturais,
científicas e de pesquisas em geral com a sua tripulação e convidados
especiais.
As Expedições Kirimurê — braço operacional do Movimento Viva
Saveiro — têm o objetivo de apresentar parte da cultura e da história do
Recôncavo Baiano, lembrando e ressaltando o papel desempenhado pelos saveiros
na construção da identidade desse pedaço de mundo tão especial.
Há anos a Associação Viva Saveiro vem alertando a sociedade mundial para o risco de extinção dos saveiros. Se você se interessou em participar desse projeto, siga o Instagram do Sombra da Lua para ficar de olho na agenda do saveiro.
Saiba mais:
Passeio de saveiro na Baía de Todos os Santos - um dia abordo do Sombra da Lua
Museu do Recôncavo Wanderley de Pinho - o engenho da memória
Expedição a Jaguaripe com o Saveiro Sombra da Lua
Mais sobre a Bahia
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