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27 novembro 2025

Minha Odisseia nos passos de Ulisses

Roteiros de viagem inspirados na Ilíada e na Odisseia

Música deste post: Ma Liberté, Georges Moustaki


Ulisses — sim, o cara da Odisseia — tem sido um guia de turismo bem presente na minha vida.

Minhas grandes inspirações pra viajar sempre vieram das músicas, do cinema e dos livros. Beatles, Jane Austen, Ricardo Coração de Leão, García Lorca são alguns queridos que já me levaram pela mão, mais de uma vez, em jornadas deliciosas. Mas ninguém me acompanhou tanto por aí quanto Ulisses.

Outro dia, relendo trechos que sempre me encantaram, me peguei contabilizando minhas viagens inspiradas na Odisseia (e Ilíada, também) e percebi que pelo menos seis dos meus roteiros foram desenhados com a colaboração dos relatos de Homero.

Das ruínas de Troia à ilha de Ítaca — passando por Malta, Lisboa e Nápoles — eu também tenho uma pequena odisseia pra contar. Uma jornada que ainda não terminou e que veio sendo construída aos poucos, como me ensinaram os versos de Konstantínos Kaváfis:

Faz votos de que o caminho seja longo,
que numerosas sejam as manhãs de verão
em que, com prazer, com júbilo,
entres em portos nunca dantes vistos.

Seguindo os passos de Ulisses — que passou dez anos tentando voltar pra casa — eu venho completando minha própria odisseia devagarzinho, totalmente encantada com as belezas que compõem o mapa dessa aventura.

Veja minha jornada real pelos lugares da Odisseia:

30 março 2013

Delfos, o centro do mundo

Templo de Apolo em Delfos na Grécia

Delfos, na encosta do Monte Parnaso, foi o centro espiritual da cultura helênica. Na imagem, o Templo de Apolo, dono da casa


Atualizado em julho de 2024

Mais bacana do que uma visita ao Santuário de Delfos só duas visitas ao lugar que foi o centro espiritual da Grécia na Antiguidade.

Na minha primeira viagem à Grécia, em 2012, já tinha amado muito a passagem por Delfos, que sempre foi um destino inegociável no meu roteiro pelo país. Visitei o Santuário de Apolo com um tour em grupo — uma alternativa fácil do que depender do transporte público.

No retorno a Delfos, em maio de 2024, tive muito mais tempo pra explorar o Santuário de Apolo no meu ritmo e pra ver com calma o sensacional Museu Arqueológico de Delfos, que não tinha dado tempo de ver anteriormente — vantagens de quem viaja de carro e faz seus horários.

Templo de Apolo em Delfos na Grécia
Templo de Apolo em Delfos na Grécia
Templo de Apolo em Delfos na Grécia
Templo de Apolo em Delfos na Grécia

O Templo de Apolo era a construção mais importante do Santuário de Delfos

Rever Delfos, com mais uma dúzia de anos de leituras e de vida, foi ainda mais emocionante do que a primeira vez. Num país sempre tão impressionante e apaixonante como a Grécia, Delfos é simplesmente top de linha entre tantas maravilhas.


Veja como foi a visita ao Santuário de Delfos, o centro da espiritualidade da Grécia Antiga:

11 março 2013

Micenas, terra de gigantes


Porta dos Leões em Micenas, Grécia
A Porta dos Leões era a entrada principal de Micenas, uma das cidades mais poderosas da Idade do Bronze


Atualizado em outubro de 2024

Conta a lenda que as muralhas de Micenas foram erguidas pelos Ciclopes. Quando me vi diante da imponência daquelas pedras, tão graciosamente justapostas, eu quase consegui enxergar os gigantes mitológicos em sua tarefa.

Três mil anos após seu apogeu, Micenas ainda traz a assinatura de seres colossais.

Foi numa manhã de setembro (minha primeira visita, em 2012), fazia um calor quase insuportável, mas não tinha a menor importância. Eu estava em Micenas, fundada por Perseu, o matador da Medusa.

Sítio Arqueológico de Micenas na Grécia
Sítio Arqueológico de Micenas na Grécia

Diz a lenda que a cidade de Micenas foi construída pelos gigantes Ciclopes


Micenas também foi a cidade de onde Héracles partiu para realizar seus 12 trabalhos — Neméia, onde o herói matou o leão, e Lerna, onde ele deu cabo da Hidra, ficam do ladinho e também são sítios arqueológicos abertos à visitação. 

Micenas de Agamenon, da Casa dos Átridas, que reinou sobre o Peloponeso e reuniu os povos helênicos para a perdição de Troia. Uma terra de gigantes épicos, pairando sobre o extenso vale até alcançar o mar.

A paisagem do Peloponeso vista do alto do Megaron de Micenas
A paisagem do Peloponeso vista do alto do Megaron de Micenas
A paisagem do Peloponeso vista do alto do Megaron de Micenas

A paisagem do Peloponeso vista do alto do Megaron de Micenas. Acima, em primeiro plano, tumbas reais próximas à Porta dos Leões


Micenas é um bate e volta confortável para quem está em Atenas ou em Nafplio. Um dos lugares mais emocionantes que eu vi na Grécia.

Veja como se organizar para visitar esse tesouro da Idade do Bronze:

03 novembro 2012

Ruínas de Troia na Turquia - o poder da palavra

Ruínas de Troia na Turquia
O grande atrativo de Troia emana do poder de uma história bem contada

O caminho é árduo, a paisagem é árida, o cenário é pobre. Mesmo assim, a visita às ruínas de Troia, na Turquia, está entre uma das melhores coisas que fiz na vida.

De Istambul a Troia são cinco horas de ônibus, mais outro tanto na volta — sem contar as travessias de ferryboat.

Em torno das ruínas de Troia, você verá apenas arbustos retorcidos e o solo pedregoso, calcinados pelo sol, e o azul do mar no Estreito de Dardanelos.

Anfiteatro nas ruínas de Troia na Turquia
Anfiteatro escavado em Troia
Vestígios romanos nas ruínas de Troia na Turquia
Troia tem pelo menos nove camadas de cidades sobrepostas, atestando a antiguidade da sucessiva ocupação do local por diferentes povos. Os vestígios na imagem são romanos e datam da nona povoação da área

Os vestígios arqueológicos vão muito pouco além dos restos de muros, alicerces e destroços em processo de catalogação.

Por que ir a Troia, então?

Porque nas ruínas da cidade da Ilíada, o que importa são as palavras. É a força de um relato, composto há quase três mil anos, que torna o sítio arqueológico de Troia absolutamente arrebatador.

Camadas arqueológicas nas ruínas de Troia na Turquia
Camadas arqueológicas nas ruínas de Troia na Turquia
As etiquetas com algarismos romanos demarcam as diversas camadas de Troia. Guerras, tsunamis e malária devastaram as sucessivas povoações assentadas no local, uma posição estratégica dominando a entrada do Estreito de Dardanelos. No quebra cabeças arqueológico, a majestosa Troia homérica teria sido a sétima cidade erguida no local
Camadas arqueológicas nas ruínas de Troia na Turquia
A placa explica a sobreposição das povoações em Troia (Tabakalar = camadas, Perioden = períodos, Strata = estratos)

Talvez no mundo regular uma imagem valha mais que mil palavras. Estamos com pressa e a imagem — essa fração de segundo que promete descrever tudo — nos conforta.

Felizmente, há uma outra vida onde as palavras formam realidades infinitas, desenham universos e tornam lúdica e lírica até mesmo a objetividade da imagem (sei que vou apanhar, mas sustento que, até no cinema, o princípio era o verbo).

Anfiteatro romano nas ruínas de Troia na Turquia
Mais um anfiteatro romano. Este e o que você viu lá no alto datam da oitava ou nona povoação de Troia, que compreendem os períodos clássico, helenístico e romano

Troia não é atração turística. O quebra cabeça arqueológico de suas nove camadas de povoações superpostas não tem esplendores arquitetônicos para oferecer à contemplação.

O sítio arqueológico de Troia também não oferece muitas oportunidades para selfies: o entusiasmo com os cliques cessa logo que os grupos de excursionistas atravessam os portões do sítio histórico, deixando para trás um cavalo de madeira meio cafona, mas muito disputado como pano de fundo para fotos.

Réplica do Cavalo de Troia
Muralhas em troia na Turquia
Vestígios arqueológicos em Troia na Turquia
A "réplica" do cavalo concebido por Odisseu faz mais sucesso que os verdadeiros vestígios de Troia

Não há muito o que ver em Troia. Apenas pedras e fragmentos da História de nove ocupações humanas. Assentamentos que teimaram em florescer nessa faixa de terra estratégica, à beira do Estreito de Dardanelos, para, um dia, serem varridas por maremotos, guerras ou epidemias.

A Troia de Heitor (cantada por Homero) teria sido a sétima — e a mais poderosa — cidade erguida aqui.

Estreito de Dardanelos visto das muralhas de Troia na Turquia
Estreito de Dardanelos visto das muralhas de Troia na Turquia
Restos de muros troianos contemplam o Estreito de Dardanelos. Na narrativa de Homero, foi neste pedaço de terra que Aquiles e Heitor se enfrentaram

A última Troia, romana, pereceu de pragmatismo, ofuscada pelo o esplendor de Constantinopla, pelo deslocamento das rotas comerciais e consequente esvaziamento da importância militar da região.

Tudo isso vai sendo lembrado pela descrição monocórdia do guia turístico. Mas essas palavras objetivas, acessórias à imagem imediata, logo emudecem. Aqui, quem canta é a Musa.

Sítio Arqueológico de Troia na Turquia
A Arqueologia ainda não encontrou um modo seguro de escavar Troia sem danificar as diversas camadas de cidades assentadas aqui. A maioria dos vestígios visíveis é da cidade romana. Mas os trabalhos prosseguem
Sítio Arqueológico de Troia na Turquia
Sítio Arqueológico de Troia na Turquia
Sítio Arqueológico de Troia na Turquia
Muitos vestígios de construções em Troia ficam protegidos das intempéries por toldos

Andando em silêncio pelas trilhas do parque, são as palavras mágicas de Homero que reconstroem as imagens do mito e da história.

Lá adiante está o mar, de onde chegaram os atreus "no côncavo de suas negras naus". Lá estão as areias que receberam corpo mutilado de Heitor. São as palavras que reerguem as muralhas e reeditam o assédio, que repovoam esse campo onde “muitas almas de heróis desceram à casa de Hades”.

Em Troia, minha alma estava voando.

Veja as dicas dessa viagem mágica às ruínas de Troia:

Ruínas de Troia na Turquia
Não foi muito fácil chegar a Troia, mas ir até lá foi uma das melhores decisões que já tomei em uma viagem