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| Houve um tempo em que eu não gostava de Elvis — azar o meu |
Ah os arroubos juvenis... Eu mal tinha acabado de escutar o
Never Mind the Bollocks, numa tarde do longínquo 1975, e já estava possuída pelo pelo espírito de Francis Fukuyama (antes de Fukuyama, por sinal). Decretei o fim da história.
"O Rock parou aqui", sentenciou a
Eu-aos-14-aninhos, convicta de que nada mais suplantaria o viço transgressor, visceral e inovador contido no álbum da banda punk Sex Pistols. Se você está rindo da minha prepotência, ainda não viu nada: muito pior foi o dia que eu falei mal de
Elvis Presley.
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| Juventude é um perigo: eu escutei os Pistols e já saí decretando o fim da História do Rock 😁 |
Sim, porque a profecia adolescente ficou no ouvido de duas ou três testemunhas. Mas meu ataque a Elvis foi público, impresso em um jornal de respeitável tiragem, texto de página inteira na capa de uma caderno B que todo mundo lia (todo mundo em Salvador, pelo menos). E eu já estava mais crescidinha, tinha 26 anos.
Pra piorar, falei mal de The Pelvis na véspera da data em que ele completava 10 anos de morto (16 de agosto de 1987). E foi na véspera porque, na época, a
Tribuna da Bahia não circulava aos domingos.
Meu texto (que eu transcrevo na íntegra, mais abaixo) provocou um deus nos acuda. O telefone da redação da Tribuna não parava de tocar — nunca imaginei que o fã clube de Elvis fosse tão grande na Bahia.
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| Hoje, Elvis até viaja comigo |
Era gente me xingando de tudo que é nome, alguns ameaçando me dar um
corretivo. Teve até ameaça de morte — naquele tempo, achei pitoresco. Fosse no Brasil de hoje, ia ficar verdadeiramente preocupada.
O fuzuê durou uma semana — tempo pelo qual fui orientada pela chefia da redação a entrar no jornal pela rua de trás, pela porta da gráfica, para evitar o piquete. Sim, teve piquete de protesto. Magrinho, mas teve.
O que demorou muito mais pra passar foi meu desencontro com Elvis Presley. Eu ainda ia levar mais de uma década pra enxergar o artista (e que gigantesco artista!) que a soberba dos meus 26 anos sequer intuía. Com todas as contradições que eu cito no artigo, Elvis entrou pra o meu panteão — e John Lennon, fã de carteirinha de The Pelvis, teve uma participação fundamental na minha conversão.
Mas pra alguma coisa a passagem do tempo tem que servir, né? Hoje, eu puxo as minhas orelhas pela petulância juvenil e cumpro a deliciosa penitência de ouvir, cantar e dançar com Elvis.
Em novembro de 2018, tive a imensa alegria de visitar
Memphis, uma baita cidade, que pode bater no peito e se orgulhar de ser o lar do Blues e o berço do Rock'n'Roll. Memphis também é a terra adotiva de Elvis (nascido em Tupelo, Mississípi, em 8 de janeiro de 1935), a quem prestei as devidas homenagens.
Que bom que eu consegui descobrir Elvis Presley em uma encruzilhada desse meu caminho pela vida.
Aproveitando que a Fragata está no estaleiro por conta da pandemia, resolvi compartilhar essa história e o texto sacrílego que escrevi em 1987.
A morte de Elvis completou 43 anos há dois dias (16/08/2020).